sábado, julho 17, 2004

A Arte imita a Arte


 
Oscar Wilde morreu em Paris em 1900 e, como é amplamente sabido, ressuscitou em Manchester, cerca de sessenta anos depois, com o nome de Stephen Patrick. Sob pena de ter eu que iniciar carreira literária, alguém deveria discorrer longamente e de cátedra sobre esta comprovada reencarnação. O Pedro Mexia ou o Miguel Esteves Cardoso, por exemplo. Não consta que sejam peritos em fenómenos paranormais mas, em todo o caso, percebem ambos tanto da obra do provocador irlandês como da da alma gentil dos Smiths. Morrissey mudou-se para Los Angeles no final dos anos 90, naquela que foi a mais dramática e inadvertida inversão de carreira desde a inapelável decisão de Michael Bolton de cortar os seus míticos e voluptuosos caracóis. Previu-se o pior. Não tanto o fim de carreira e mais a cedência ao sol californiano e à euforia de Hollywood. O último You Are The Quarry foi, quanto a isso, um alívio. Antes do reconhecimento artístico, antes do prazer oferecido pelo grande álbum que é, foi exactamente isso: um alívio. O Morrissey que conhecemos continua lá. Todinho. Do hedonismo ao decadentismo, da sexualidade indefinida à tristeza infinita, da auto-flagelação aos pequenos e encriptados ajustes de contas pessoais. Todinho. E, por esta via, continua devedor e seguidor de Wilde. Com a diferença de que desta vez a influência é particularmente ostensiva.  Poder-se-ia falar do escárnio de America Is Not The World, não fora o tom definitivamente unMorrissey, mais perto da vulgaridade do Fórum TSF do que da graciosidade e do wit de Lord Henry Wotton. Falemos antes de Irish Blood, English Heart (“I will die with both my hands untied”), que lembra o heroísmo suicida vestido de orgulho celta dos últimos dias de Wilde em liberdade. Ou de I Have Forgiven Jesus (“for all the desire He placed in me”), que remete para a religiosidade adquirida nos seus últimos dias de vida. Do ódio à banalidade (“The World Is Full of Crashing Bores”). Da relação conflituosa com a imprensa (“The whispering may hurt you, but the printed word may kill you” – e aqui Morrissey só pode estar a falar de Wilde). Da atracção latente pela languidez de corpos masculinos em bando e desocupados (“All the lazy dykes, they pity how you live, ‘just somebody’s wife’, you give, and you give, and you give, and you give…”), e pelo abismo, que se oferece como a solução inevitável para uma vida de contradições e frustrações, uma vida dedicada à decadência do excesso sentimental (“Jesus – do you hate me? Why did you stick me in self-deprecating bones and skin?”). Morrissey é interiormente o que os Duran Duran só conseguiram ser visualmente. E tendo, porém, o corpo junto ao Pacífico, a alma, essa, continua onde sempre esteve: “under slate-grey victorian sky”. FMS