quinta-feira, julho 15, 2004

Se houvesse uma só canção na vida, qual é que gostavam que fosse?
Não vale usar truques como medleys ou uma conversão rápida ao Budismo. Uma vida, uma canção, no melhor espírito Bob Marley.
Pois a minha é de um grupo de que eu não gosto. Chama-se Hey Fever! e bastava-me por 78 anos.
Os Arab Strap, que criaram a coisa, são um grupo de escoceses carrancudos. Daqueles que passam uma vida inteira a ver chuva, neve e kilts o que, como se compreende, acaba por condená-los à busca da Beberrónia. Continente perdido, onde habitam os beberrões e o vinho é de consumo obrigatório. Por essas razões, mas também por outras, choram aquele pranto ébrio, o mesmo que antes já foi cantado tanto pelo Alfredo Marceneiro como pelo Tom Waits.
Sucede que, entre os soluços, também andam de autocarro. E foi no autocarro que se descobriram seguidos por um rapaz ruivo.
Indecisos entre ignorá-lo e sová-lo, decidiram convidá-lo para tocar qualquer coisa.
Ora, aqui começa a história. À depressão dos Arab Strap fazia falta uma pitada daquela alegria estúpida e infantil, própria de quem ri por tudo e por nada. E era isso que o rapaz ruivo se propunha emprestar.
O resultado foi Hey Fever! uma viagem entre a febre dos fenos e o Travolta.Imaginem um grupo Soul da América profunda, dentro de uma garrafa de Whisky a encher-se de bolos de arroz. É isso mesmo, impossível.
Resta explicar que a restante discografia dos Arab Strap é o exacto oposto da Coca-Cola do Pessoa : Primeiro entranha-se, depois estranha-se.
Começa por ser um exercício curioso de lentidão e fadiga. Depois passa a ser só cansativo, porque continua a ser lento e arrastado. Ao fim de um quarto de hora, o tom lento e arrastado ultrapassa a fronteira do tolerável.
Por isso, depois do Hey Fever! deixei-os na paz embriagada onde ainda repousam.
E o que é que aconteceu ao ruivo que conseguiu puxar os Arab Strap para o reino do amor e da cor, ainda que só durante três minutos?
Seguiu a sua vida, formou um grupo só seu e, pelo caminho, escreveu a canção que eu escolheria, se tivesse de escolher uma só canção para o resto da minha vida, chama-se The State That I Am In.
O grupo, já perceberam, são os Belle And Sebastian.

15 Comments:

Blogger al said...

Provavelmente, neste momento, também escolheria uma música dos Belle & Sebastian como "música da minha vida", mas seria "I fought in a war". Mas era apenas agora, ou talvez por mais uns tempos - depois a coisa há-de mudar, acho...

11:01 da tarde  
Blogger al said...

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11:01 da tarde  
Blogger al said...

Ops, desculpem a repetição; já agora, como é que se faz para deixar o link neste sistema de comentários?

11:06 da tarde  
Blogger rita said...

Eu escolheria o "Love will tear us apart".

9:34 da manhã  
Blogger ana said...

Things you Keep dos The Apartments....

3:25 da tarde  
Blogger bode said...

i was surprised, i was puzzled by a... BLOG!?!?!?!
O regresso do anjoLoiro!
Continuo sem te querer dentro de mim, mas à distância segura de um blog até não é mau. Quanto ao Hey! Fever, concordo de todo.
Uma música para a vida... não é fácil. Talvez te dê um top 5 um dia destes.

4:40 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Entre o Love Will Tear Us Apart, o Good Vibrations ou o Unfinished Sympathies (ou até mesmo o Daydreaming tmb dos Massive) seria muito dificil escolher uma!

Miguel Lourenço Pereira
www.mblog.com/hollywood

4:53 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Cá para mim, que carrego os 80s às costas (com prazer, com prazer...) a minha música da ilha deserta só pode ser (pelo menos hoje, agora) a All We Ever Wanted Was Everything dos Bauhaus.

Mas isso é agora, claro, como não podia deixar de ser.

Ah!, e já agora, os meus cumprimentos pelos escritos, passam já para as minhas leituras.

Farrolas
fluxandmutability.net

10:01 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Eu vejo as coisas numa outra perspectiva: há uma vida para várias músicas, sendo que o fascínio da existência musical humana varia proporcionalmente em função de variantes tão simples como a noite/dia, verão/inverno, companhia/solidão, agitação/calmaria...
Reduzir tudo isto a um "se" e a "uma canção" é restringir a própria condição humana na eterna busca de criar a canção perfeita...

Ass: Fidelis

10:36 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

"grace"- Jeff Buckley

2:25 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Mas, como gosto tb de contribuir, creio que seria uma boa sugestão para esta época de verão, e numa postura descontraída, o "Sicily" dos Rocket Girl... Vale a pena escutar...

Ass: Fidelis

7:25 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Reparo do FIDELIS: queria escrever "Sicily" dos MAZARIN da editora Rocket Girl...

É o problema dos copy-pastes!

Ass: FIDELIS

9:01 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Escolher uma canção é para mim impossivel, posso apenas referir um album que é para mim perfeito : Doolittle, dos Pixies

4:06 da manhã  
Blogger JAB said...

a "Hey Fever!" tem 5m42, e é mesmo uma das melhores músicas dos Arab Strap, embora pessoalmente prefira a "Who Named The Days", completamente no estilo melancólico e depressivo do costume.
escolher uma canção para a vida ainda é mais complicado do que escolher uma canção para o momento de morrer. sem pensar muito, e sem efeitos vinculativos, escolheria a Lucky dos Radiohead (OK Computer, obviamente)...

8:16 da tarde  
Anonymous Vinícius said...

Achei esse blog por acaso enquanto procurava coisas sobre o Arab Strap na internet!!!
Li todo o texto e não pude deixar de comentar!!
Bem, Arab Strap é uma banda pra quem os entende.. creio que eu me enquadre nisso!
Se fosse pra cometer um suicídio essa seria minha trilha sonora, não apenas pelo sentimentalismo evidente, mas pela beleza e simplicidade do som que eles emitem!!
Enfim, Arab Strap é uma ótima banda, uma das melhores... se vc os entendesse assim como eu me refiro vc concordaria comigo!!!
Dá uma passada no meu blog:
http://www.fantomasgrunge.blogger.com.br
Valeu, até a próxima!

5:20 da tarde  

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