quinta-feira, agosto 12, 2004

Blue Monday

Uma destas Segundas-Feiras estivais, fui ver os Loto, principal atracção de uma discoteca algarvia da moda, propriedade de dois irmãos célebres outrora como fundadores de uma conhecida claque de futebol e hoje por se darem bem nos negócios da pândega noctívaga. Gosto dos Loto. Gosto da substância, das canções orelhudas, da sensibilidade pop irresistível. E gosto da forma, do despudor com que assumem a genealogia e a tradição onde se inscrevem. Bandas há com que nos identificamos pelos temas, pelas opiniões, pela tristeza, pela ironia ou pela erudição. Com os Loto, identificamo-nos porque fazem aquilo que sempre quisemos fazer: escrever canções simples e inteligentes com os melhores amigos, canções para serem tocadas de palco em palco e cantadas por multidões. E identificamo-nos porque as influências são, em grande medida, as mesmas. Escutam-se os Loto e é impossível não pensar nos Happy Mondays, nos Charlatans, nos Stone Roses e na restante turba dançante da Factory e da Madchester. Coisa que os idiotas da novidade - almas tristes e frustradas sempre na ânsia de inéditos futuros - não percebem. Em todo o caso, estranhei a notícia dos Loto em actuação perante uma massa em princípio avessa às nuances da sofisticação artística. Seriam assim uma espécie de versão pop de Miguel Sousa Tavares, que escreveu um romance sério, o qual, porém, é mais visto nas praias do Algarve do que nos salões finos da movida cultural. A verdade, essa, é que os Loto se saíram maravilhosamente bem, debatendo-se primeiro com o alheamento geral e deixando o palco no meio de um entusiamo assinalável. A situação e a ambição, contudo, deixarão os cínicos exultantes de escárnio. 2004 não é 1980, Vilamoura não é Manchester e a discoteca dos irmãos Rocha não é o Haçienda. Certo. Mas os cínicos podem dormir descansados. É que os Loto, apesar do bom esforço, também não são os New Order. FMS