segunda-feira, setembro 20, 2004

What a waster, what a fuckin' waster



O Pedro Robalo, um dos fundadores da blogosfera, foi um dos poucos que viram a História passar-lhe à frente dos olhos e, a meu pedido, aceitou contar o que viu.

Então cá vai.

Que «os Libertines ao vivo são uma banda órfã de Pete Doherty» terá sido a coisinha mais acertada que o semanário Blitz alguma vez proferiu acerca desta excelsa banda. Apesar de nas últimas semanas o Blitz nos ter apresentado os factos e as bandas que configuram toda uma «nova cena» pós-britpop, em que os Libertines assumem papel dianteiro, a verdade é que esta publicação (será exagero generalizar a toda a crítica nacional?) nunca foi muito à bola com as criações de Pete Doherty, Carl Bârat e cúmplices. Para os doutos jornalistas da casa, «Up The Bracket», disco de estreia de 2002, não passou de «uma nota de rodapé» desse mesmo ano, sendo os Libertines «a resposta britânica aos Strokes», pois que de garage rock estávamos necessitados. Estamos conversados.

Por terras da Great Albion a cantiga é outra. Up The Bracket redundou em sucesso estrondoso. Os gigs dos Libertines sucediam-se a ritmo escaldante, fossem eles em pubs refundidos a rebentar pelas costuras como três-noites-três de London Astoria esgotadas. A imprensa não foi comedida no verbo: «a banda mais importante da nossa geração», «o álbum mais aguardado da década» (sobre The Libertines, recentemente editado) ou «os Sex Pistols do século XXI». Alan McGee, manager da banda e alguém com predicados nestas andanças, disse que os Libertines eram «a banda culturalmente mais relevante» com quem tinha trabalhado.

Gente estranha esta, povo de hooligans confusos e de gosto abstruso. Eles põem «The Libertines» no número 1 da chart de álbuns, seguido de «Songs About Jane» dos Maroon 5. Na mesma semana, nós pomos os O-Zone (sim, aqueles tipos de leste que esgalharam o hino dance-chunga «Dragostea Din Tei») e Juanes (sim, esse songwriter de finíssima estirpe). Mais uma vez, estamos conversados.

Voltemos ao concerto. Que se ficar para a história não será por ter sido aquilo que usualmente se designa por «um grande concerto». Mas acredito que ficará para sempre na memória de quem lá esteve. Porque os Libertines são estupidamente sinceros, incapazes de encenar. Maus entertainers. Excelentes músicos. Com alguma queda para ícones.
É mais que visível, é palpável – a banda encontra-se dilacerada pelo afastamento provisório de Pete Doherty, a braços com uns problemitas de crack. E a sua actuação difusa espelhou isso mesmo: cerca de vinte temas despejados em sessenta e poucos minutos, conversa inexistente, electricidade comedida. Apesar de tudo, o trabalho das guitarras é fantástico. Os solos estão no sítio, a coordenação é perfeita. Carl Bârat nas vozes é pouco melhor que sofrível. Sentimo-lo sozinho no palco, talvez constrangido pelo peso de um protagonismo que costuma partilhar com Doherty. Fuma que se desalma, bebe whisky às goladas, e isso nota-se na sua postura meio abananada, que encarna na perfeição a imagem do «fucked-up rocker» sempre associada aos Libertines. John, o baixista, sorri mais não muito, olha para o infinito como quem não está neste mundo. Gary, o baterista negro, incansável e frenético, é o tipo simpático e em melhores condições. Há ainda o guitarra-ritmo substituto Anthony Rossomando, que fez aquilo que lhe era pedido.
Em termos de canções, o concerto abriu com Don’t Look Back Into The Sun, single orelhudo e irresistível editado entre álbuns. Do primeiro disco pontificaram momentos pop memoráveis – Death On The Stairs, Time For Heroes, Tell The King e Up The Bracket. Também não faltaram What A Waster, I Get Along, Boys In The Band e Vertigo. Do segundo trabalho, destaque para os inevitáveis Can’t Stand Me Now e What Became Of The Likely Lads, face e reverso de uma moeda cunhada a amor e ódio, que não é mais que a desventurosa história, de desfecho em aberto, dos Libertines. Menção ainda para Narcissist, The Saga e Road To Ruin.
Canções, cançõezinhas, impregnadas daquela pop de substrato britânico a que insistem chamar de «aristocrática». E rock de guitarradas, das boas, que condensa em peças de três minutos mais de trinta anos da melhor escrita de canções do género – falemos de gente como os Jam, os Buzzcocks, os Clash ou os Kinks. Isto para não nos perdermos num namedropping mais extenso.

Em suma, rasgos de génio musical reproduzidos num concerto cheio de defeitos. Mas não foram os Libertines a banda pop que nos (re)ensinou a amar os defeitos?

Pedro Robalo

Em breve: a minha versão dos acontecimentos, logo seguida de "E se um dia uma estranha lhe oferecesse cocaína numa casa de banho mista da discoteca mais debochada de Copenhaga?"

FMS


1 Comments:

Blogger Saleiro said...

É nessa impureza dos defeitos que está toda a beleza da chamada cena pós- britpop. Os Libertines são bons. Os Libertines fizeram um grande album.

4:41 da tarde  

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