quinta-feira, outubro 21, 2004

Bem assim



Se, como disse Shaw, uma thing of beauty é uma joy forever, o que será uma série avassaladora e contínua de things of beauty? Houvesse algo para lá de forever e o concerto dos Magnetic Fields poderia ser verdadeiramente descrito. Como nem as religiões mais entusiastas acreditam que haja alguma coisa para lá da eternidade, os Magnetic Fields vão ter de se contentar com a posição embaraçosa de terem sido apenas uma joy forever. O concerto não foi o do CCB? Certo. As interpretações não foram especialmente inspiradas? Correcto. Os artistas estavam com pouca paciência para a actuação? Sim, era visível. E? Dizermos que foi um mau concerto é o mesmo que quem quer que tenha assistido ao milagre da multiplicação dos pães dizer a Jesus Cristo que a sua destreza já teve melhores dias ou que preferia broa de Avintes. Quando o assunto é a veneração, o resultado final e a desenvoltura técnica são pormenores invisíveis e indizíveis. O que é importante é ver. Estar lá. Perceber como é que tanta beleza pode saír da cabeça, do coração e das mãos daquela personagem com cara de palhaço pobre e aspecto de mecânico em fim-de-semana. Podíamos estar para aqui horas a explicar a adoração, a explicar como nada nos Magnetic Fields é bem assim, que as letras são trágicas mas não é bem assim, que às vezes são cómicas mas não é bem assim. Por ora convém apenas descansar os infelizes que não estiveram presentes. Haverá muita gente a dizer que foi um mau concerto. Mas não é bem assim.

FMS

1 Comments:

Blogger cookie said...

sim, faltou tanta coisa, sintetizadores incluídos. sim, comeram frango e na preguiça pós-refeição não estavam com a maior das vontades. houve quem dissesse que lhes faltou magnetismo. mas boa música bem interpretada será sempre e só isso. expectativas à parte. eu gostei e vim magnetizada para mais uns anos.

2:35 da tarde  

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