quarta-feira, março 23, 2005

A música do silêncio



Música e silêncio, termos contraditórios que cinco ingleses introvertidos conseguem interpretar na perfeição - os Savoy Grand ao vivo em Colónia, a celebrarem a melancolia, a fragilidade, a subtileza, numa pequena sala, com pouco mais de cem pessoas. Fui para o concerto sem saber o que me esperava, sem conhecer qualquer das músicas. Abandonei a sala como missionário, ansioso por distribuir os sons pela cidade.
Pelo que ouvi, os momentos de pureza de "People And What They Want", o seu terceiro disco, evocam os dias de Outono. Numa altura em que o sol decidiu voltar à Alemanha e não falta muito até que surja a dança que vai marcar este Verão, a música dos Savoy Grand aparece, assim, algo desenquadrada. É um disco que se bebe com chá e se esconde da luz do dia. É um disco para aqueles raros momentos em que nos podemos perder no tempo. E que exige tempo, com músicas que demoram a expor-se e chegam a ultrapassar os 8 minutos. Mas não se reduz à mera contemplação. Os Savoy Grand não se acomodam às doces cantigas da introspecção. Por vezes, combinam as emoções com batidas electrónicas, integram trompetas e até xilofones e fazem lembrar os Mogwai, com guitarras apoteóticas finais. Merecem portanto que, entre um e outro ensaio para as despreocupadas noites de Verão, nos sentemos no sofá, não atendamos o telefone e nos deixemos embalar por estes ensaios sobre a lentidão. REC