quarta-feira, abril 27, 2005

Melhor que Lenine

(A crónica do concerto que os Gang of Four deram no passado dia 16 de Abril no Melkweg, o célebre clube de Amesterdão, feita pelo Pedro Robalo, o nosso leitor destacado na terra das montras bem decoradas)

Melómano que se preze desconfia de reuniões tardias de bandas que o tempo se encarregou de enterrar. Haverá algo mais penoso do que ouvir uns Doors afanados ao vivo por um vocalista emprestado ou Roger Waters encenar um «show» grandioso e manhoso ao mesmo tempo que finge ter o legado Pink Floyd na sacola? E isto para nos cingirmos a casos com os quais tivemos contacto recente.

Quando em finais do ano passado li que os Gang of Four planeavam uma reunião para alguns concertos em inícios de 2005, a minha reacção foi um misto de surpresa e desconfiança. E alguma inveja – as datas anunciadas cingiam-se ao Reino Unido.

Claro que o destino prega-nos partidas, e das boas. Quis este que me fosse dada a oportunidade de assistir ao vivo a uma das datas da entretanto alargada tour dos quatro de Leeds. O Melkweg (que traduz para «Via Láctea»), onde tudo se passou, é um complexo de cariz cultural altamente conceituado e dinâmico. Propõe ciclos de cinema, espectáculos de teatro e dança, ecléticas noites de clubbing, ao mesmo tempo que acolhe concertos das mais variadas bandas. A sala de concertos é pequena (os U2 nunca caberiam nela), mas a atmosfera é perfeita. Algo como o lisboeta Paradise Garage.

Quando ali cheguei, o dj de serviço alinhava uma boa selecção musical, traçando uma genealogia mais ou menos directa da descendência Gang of Four, alternada com clássicos dos Joy Division. Lá estavam Franz Ferdinand, Radio 4, LCD Soundsystem, Futureheads, Rapture, Interpol, etc – herdeiros, mais ou menos directos, do legado Gang of Four. Pelo menos é o que a imprensa diz.

A abertura do concerto deu-se com o riff irrepetível de «Return the Gift». Duas notinhas de guitarra que cortaram a sala em pedaços. A banda mais marxista da história está em palco, e numa forma invejável. Mais velhos, é certo, mas com energia punk a correr nas veias. Quando a canção explode, Jon King dança freneticamente à la Madchester, e estamos de volta a 1980. Os Gang of Four apresentam, ao vivo como em disco, uma formação rock’n’roll pura e dura – bateria, baixo, (uma) guitarra e um frontman que tresanda carisma. O que surpreende aqui, e surpreendeu aquando da sua estreia, é a cadência cheia e o apelo funk das suas criações. E isto sem perda de uma gota de legitimidade rock’n roll. O concerto visitou sobretudo os álbuns Entertainment e Solid Gold, aqueles que de facto interessam. A banda não está lá para entreter ninguém, e como tal a comunicação foi escassa. Os tipos já têm idade para saber que piadas foleiras e costumeira gabarolice aos locais e sua cidade não servem para nada. Proporcionaram bons momentos de rock, e isso chega. Ether, Anthrax, Natural’s Not In It e um par de outras estiveram impecáveis. Com To Hell With Poverty é caso para dizer que even the white guy dances. E Paralysed trouxe a iconoclastia à sala – Jon King marcava a batida com pancadas violentas de um pé-de-cabra numa televisão, que se ia desfazendo ao sabor dos sons cáusticos. At Home He’s A Tourist, o único hit assinalável na história da banda, foi sublime, com a audiência a entoar em uníssono «two steps forward, six steps back, six steps back». Para o primeiro encore, ficou aquela que é para mim a melhor canção dos Gang of Four - Damaged Goods. Menos política que a maioria, a tresandar boas guitarras, com um baixo pulsante e uma letra brutal. Para coroar uma actuação em cheio, em segundo encore, I Found That Essence Rare. Esta que foi a canção mais pedida pelo público. E, fazendo jus aos ideais veementemente proclamados noutros tempos, a banda deu ao povo aquilo que ele queria e precisava. Num tempo em que abunda a democratização da mediocridade criativa, de criações pastiche maioritariamente efémeras, aqui me consagro ao retorno das verdadeiras vanguadas. Musicalmente falando claro está.

Lá fora, depois do concerto, trovoada e chuva torrencial. Como nos céus de Leeds.

Pedro Robalo

FMS

2 Comments:

Blogger Roberto Iza Valdes said...

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

4:18 da tarde  
Blogger Iza Roberto said...

Este comentário foi removido pelo autor.

8:58 da tarde  

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