quarta-feira, setembro 07, 2005

Disco com cão



Lucky Dog Recordings 03-04
Stuart A. Staples

Há um altura na vida, das pessoas como dos grupos, em que a questão é ser ou deixar de ser.
Posto perante a decisão Stuart Staples decidiu que era altura de tentar ser sozinho.
De facto, a história recente dos Tindersticks aconselhava a mudança, o último «Waiting for the moon» era um disco cansado, repetido e repetitivo até à exaustão.
O problema é que, ao decidir seguir sozinho, Stuart Staples decidiu também ser contra o passado. Evitar deliberadamente tudo o que soasse a Tindersticks. É por isso que o disco soa assim, soa a disco do contra.
Foi um exercício falhado, é claro, tudo transanda a Tindersticks. Ainda assim, como tentativa, é louvável, revela uma pose determinada que merece admiração e, como se sabe, Stuart Staples viveu sempre muito mais da pose do que da posse.
Quanto aos méritos do disco, que é alheio à vida íntima do seu autor, diga-se que é desequilibrado. Não é muito bom, mas, por um ou dois momentos, apetece ouvi-lo outra vez, que é o melhor elogio que pode fazer-se a qualquer coisa gravada.
Começa bem, com um belo exercício de ruptura; o instrumental «Somerset House», melodia frágil einsuflada de lá-lá-lás, que nem o aparecimento de um saxofone deslocado consegue estragar.
Às tantas surge «Say Something Now» e fracassam todas as tentativas de descolagem do universo dos Tindersticks, mas como nada se perde, ganha-se o efeito lateral que é pôr-nos a cantar a linha de abertura com mais e mais força.
Surge, depois, uma razão que, sozinha, chega para justificar o tempo e o preço. Dois minutos e pouco que justificam o resto tudo; « Shame On You», um instante cheio de força, ódio e uma guitarra violenta que se distorce como se as cordas lhe doessem. Além daquela pronúncia inimitável que faz parte da longa lista de maneirismos que Stuart Staples se gaba de nunca abdicar.
Valem depois, a visita a Kurt Weill que é «People Don´t Fall Down», com uma frase fácil “ You Sing That Song/ And everybody sings along “ e a bela companhia de um par de trombones que impedem a música de cair na lamechice e o regresso à expiação continuada com «She Don´t Have to be Good to Me».
O disco fecha com a introspectiva «I´ve come a long way», o que não sendo exactamente verdade permite uma interessante combinação entre um orgão de igreja e as características mais gospel da voz de Staples.E o que fazer disto tudo? Esperar que o homem volte, liberto do passado, menos ecléctico e um tudo mais eléctrico. Até lá, vale refazer a frase : Shame on you Mr. Staples.

(publicado no suplemento SARL do Jornal dos Açores)
CG

2 Comments:

Blogger Maria São Miguel said...

...fico aqui colada a esta música, a este ambiente excelente! Parabéns por tudo o que aqui está presente!

10:16 da tarde  
Blogger Natacha said...

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

4:23 da tarde  

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