sábado, outubro 01, 2005

A menina dança



Pelos vistos, com os Franz Ferdinand não há esse mito jornalístico do “difícil segundo álbum”. Grava-se de novo o primeiro, evitam-se angústias criativas e não se pensa mais nisso. You Could Have It So Much Better, o sucessor da estreia homónima que se revelou a mais festejada aparição de 2004 e que chegará aos escaparates esta semana, é, como dizem alguns sobre o que se lhes afigura digno de libelo pejorativo, mais do mesmo.

No mundo da pop actual, onde a febre artística da inovação constante convive em alegre harmonia com a vertigem capitalista da obsolescência programada, a previsibilidade dos Franz Ferdinand chega a ser até um saudável elemento de imprevisibilidade. A sério: o que mais há por aí é gente respeitável a tentar o que não sabe e a embaraçar-se desnecessariamente em público, gente que não sabe o seu lugar, que rejeita a missão que lhe foi confiada.

O papel atribuído aos Franz Ferdinand, conforme reiteradamente admitido pelos próprios, é o de fazer música inteligente para engatar miúdas. E se a coisa resultou como resultou da primeira vez, por que insondável razão haveriam agora os rapazes de gravar um álbum inspirado nos Van Der Graff Generator, seguido de um outro com reminiscências da Brigada Victor Jara e quiçá de um outro ainda devedor da obra de Arto Lindsay? Se o nobre fim da criação é contribuir com a banda sonora para ondulações corporais femininas e artimanhas de acasalamento engendradas pela homenzarrada, então porque se iriam agora estes quatro escoceses preocupar com as necessidades sociais de cães, gatos ou periquitos? Precisamente. Desconhece-se a razão.

Vejamos dois casos recentes: 1) Os Rolling Stones entram em estúdio, pensam bem na porcaria que têm andado a fazer nas últimas décadas e redimem-se com álbum de rock malandro e poeirento como já não faziam desde Sticky Fingers e Exile on Main Street. A crítica levanta-se e aplaude; 2) Paul McCartney fecha-se num estúdio com Nigel “OK Computer” Godrich e sai-se com um disco descarnado e honesto que tresanda a Revolver e a Rubber Soul. A crítica aproveita a embalagem e continua o aplauso. Em ambos os casos, a reacção calorosa é unânime ao elogiar o regresso a terrenos férteis e familiares. Ou seja, há em tudo isto uma noção clara, embora envergonhada, de que cada um tem o seu devido lugar. O que não é, de todo, incompatível com o necessário impulso inovador da pop. Se queremos coisas novas, mudemos de banda. Elas estão sempre a aparecer. Os economistas chamam a isto a teoria das vantagens comparativas (ou competitivas, não me lembro). É só aplicá-la à música popular.

No novo álbum, os Franz Ferdinand não tentam sequer o engodo. É tudo às claras e logo na abertura dizem ao que vêm. The Fallen, a primeira faixa, revisita os sons e as malhas conhecidas, lembrando ao mesmo tempo 40 ft, Michael e Love and Destroy. Daí para a frente, é basicamente bateria sincopada, baixo pulsante e guitarras angulares, residindo a maior “inovação” nas baladas Walk Away e Eleanor, Put Your Boots Back On, duas pérolas que, com o single Do You Want To, constituem uma muitíssimo bem vinda lufada de ar fresco beatleano.

Com You Could Have It So Much Better, os quatro de Glasgow assumem que não querem, para já, criar qualquer coisa nova que seja no seu inconfundível som. (pequeno aparte: assim como aparentemente não querem criar descendência, dada a violência com que acondicionam a genitália em calças impressionantemente apertadas e possivelmente causadoras de infertilidade). Por esta atitude confortável e militante, serão devidamente vergastados pelos cínicos do costume, ignorantes ainda da utilidade afrodisíaca dos seus temas.

É que, como todos sabemos, de tão gastos que estão, os velhos êxitos dos Franz Ferdinand já não arrastam nenhuma miúda para a pista de dança.

(texto publicado no suplemento SARL do Jornal dos Açores)

FMS

5 Comments:

Blogger nelson said...

Prefiro os Arcade Fire ;-)

3:25 da tarde  
Anonymous nuno teles said...

O comentário não tem nada que ver com o post (com o qual genericamente concordo) mas queria desabafar e lugar pareceu-me bom.
Pá, acabaram com a melhor radio de lisboa!! A radio que dava pelo eloquente nome de 91.6 deu lugar à cidade fm. A 91.6 (porto 90.0) só passava som em playlist, sem qualquer identificação da música, sem publicidade....sem nada. Não era uma rádio, era só um frequência. Mas era a frequência com o melhor som. Muitos dos grupos que se falam por aqui conheci-os inicialmente via 91.6. Os arcade, os sons and daughters, os black keys, !!!, enfim a música de que gosto....agora morreu e ficámos orfãos. bem, pelo menos cá em lisboa temos a radar...

12:46 da tarde  
Anonymous bjm said...

E para tornar tudo ainda pior, a 91.6 foi substituída pela... Cidade FM!

Quanto aos Franz Ferdinand, não tenhamos ilusões, caro FMS: são uma cópia fraquinha dos - esses sim, contagiantes - Interpol.

1:07 da tarde  
Blogger jMAC said...

pensava que era só eu que os achava uma fraude!

1:01 da tarde  
Blogger Ricardo Pinto said...

Desde que venda...

5:38 da tarde  

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