sexta-feira, novembro 25, 2005

Trinta Cavalos



Não sei qual será o melhor critério para avaliar a qualidade de cada ano no que aos discos diz respeito, mas se for a lista dos discos do ano, então 2005 é um ano perdido.
É que os dois melhores são de anos anteriores. Um é o «Funeral» dos Arcade Fire, que é de 2004, o outro é o «Horses» da Patti Smith, circa 1975.
O que nos leva a reflectir sobre uma questão pertinente: Haverá constatação mais deprimente do que verificar que, trinta anos depois, por mais voltas que demos, o disco mais moderno do ano tem 30 anos?
A resposta é sim, há coisas muito mais deprimentes, e não, esta não é uma lamúria saudosista sobre como tudo era melhor quando a televisão era a preto-e-branco.
O facto é que este é um grande disco, e como a generalidade das obras de arte, ultrapassou o seu tempo e todos os anos é disco do ano.
Nesta edição de 2005 de «Horses», especial como se impõe, que comemora os tais trinta anos, o álbum serve-se com uma curiosidade. É que o segundo disco é igual ao primeiro. Mas ao vivo e com trinta velhos e sentidos anos de diferença.
Para quem não conhece, este é o primeiro disco da Patti Smith e é extraordinário.
Abre com uma versão, que é A Versão, do «Gloria» dos Them. Tema que, na altura era mais conhecido na interpretação dos Doors, grupo que Patti Smith inexplicavelmente, admirava, mas que, a partir daí, passou a ser propriedade da artista, numa espécie de usucapião artística.
E o que tem de extraordinário é a circunstância da sua intemporalidade ser tão improvável, senão notemos, a maior parte dos poemas são centrados nos temas da altura, lamentam-se as mortes de Jimmy Hendrix, Jim Morrison e o restante carnaval dos mil novecentos e setentas.
Ou seja, são assuntos tão terrivelmente datados, que seria de esperar que, visitados hoje em dia não passassem de curiosidades. E no entanto, não são.
A culpa, suspeito, é da absoluta energia que envolve o disco. Consequência da absorção do legado dos Velvet Underground, Rolling Stones e Stooges, revisto e aumentado pela autora.
Uma energia que, no concerto do Royal Festival Hall que preenche o segundo disco, se transforma em sarcasmo.
Exactamente porque lhe falta a novidade que insuflava o original, no concerto de 2005, Patti Smith junta o grupo que tocou em 1975 , com a honrosa excepção de John Cale, produtor e baixista da altura, e entre a homenagem e a paródia, escolheu o meio-termo. Por isso diverte-se com a amargura e a ironia que trinta anos, inevitavelmente permitem.
Uma última palavra para dizer que a capa do disco, agora como há trinta anos, é de Robert Mapplethorpe, o que, só por si já faria deste um disco clássico.
E, no entanto, também há música, música da boa e em dose dupla.
CG
(publicado no suplemento SARL do Jornal dos Açores)

3 Comments:

Blogger Antonio said...

Há mais albuns este ano, não seja tão redutor. Animal Collective, Devendra Banhardt,p. ex.
Tenho que ouvir esse da Patti, tou a ver que é uma grande falha.

1:09 da tarde  
Blogger Raitxe said...

António... o Horses não é "uma" senão "A" falha. Um grande álbum. Principalmente se aprecias Devendra, q vai "beber" mto do q produz nas influências mais folks da sô dona Patty. Um grande grande clássico que, pelos vistos, continua moderno, e pós e contemporâneo e... as etiquetas todas q se lhe queiram dar e vir a dar. É intemporal.

p.s "usucapião artística", ora aí está um termo original p se utilizar.

4:58 da tarde  
Blogger Raitxe said...

Oops!Gralha: Patti com "i".

5:06 da tarde  

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