segunda-feira, março 27, 2006

A Linha de Sombra (ou: A Fase Pina Moura dos Belle and Sebastian)

Em 2006, o melómano afecto aos Belle and Sebastian chega a “The Life Pursuit”, o sétimo álbum da banda escocesa, como o Capitão Charles Ryder chegou a Brideshead no início do famoso romance de Evelyn Waugh - com a saudade da inocência perdida, a terna recordação de um segredo parcamente partilhado e a melancolia por um passado de harmonia que entretanto ruiu: “[I]t was a day of peculiar splendour, and though I had been there so often, in so many moods, it was to that first visit that my heart returned on this, my latest”. Neste caso, a primeira visita chamou-se “If You’re Feeling Sinister”, o disco de 1996 que é tesouro em todas as colecções de quem o possui.

Quando emergiram, faz agora dez anos, a indústria musical britânica andava irredutivelmente entretida com o glamour embriagado dos Oasis e com a pose cínica, art-school e upper-middle-class dos Blur. Os Belle and Sebastian foram, então, o grupo da adolescência inadaptada. As melodias frágeis, pastorais e infantis, pequenas pérolas de três acordes e arranjos contidos, foram a banda-sonora para corações solitários de ambição literata, os Smiths de quem ainda usava calções em 1985. Entretanto, porém, os Belle and Sebastian cresceram, envolveram-se em crises semi-conjugais internas e enriqueceram.

Pelo que se leu sobre o novo álbum, não parece que muitos lhe tenham perdoado o aburguesamento. Faz parte da ortodoxia da crítica musical. Há segredos que deveriam ser apenas nossos para sempre, bandas que, por nós, permaneceriam imutáveis até ao fim dos dias. Mas não é assim a realidade. Depois da pureza e da ilusão, o destino ofereceu aos Belle and Sebastian a possibilidade de fazerem tudo como os outros - criar família, pagar o empréstimo, comprar um Porsche, arranjar uma amante e utilizar muitos instrumentos para gravar canções.

O caminho rumo à idade adulta, que começou a ser percorrido com a viragem do milénio, foi tudo menos auspicioso. “Fold Your Hands, Child, You Walk Like a Peasant”, “Storytelling” e “Dear Catastrophe Waitress” foram, em grande medida, discos falhados, com temas de antologia mas muitas excrecências que nem a memória do mais fiel retém. “The Life Pursuit”, felizmente, inverte a tendência. Não faz os Belle and Sebastian regressarem aos tempos da estética lo-fi e da atitude Do It Yourself, mas, mais importante do que isso, ao olimpo da pop perfeita, viciante, liricamente micro-cósmica e musicalmente hiper-referente (as minhas desculpas pela última frase, de tão pouco pop que é).

Com a ajuda do produtor Tony Hoffer, noutras ocasiões companheiro de estúdio de Beck, Air, Mercury Rev e de mais umas quantas celebridades do meio, os Belle and Sebastian fizeram um disco caleidoscópico, com os tiques melódicos dos Kinks (“Funny Little Frog”), a brisa dos Beach Boys (“Act of the Apostle Part 1”), a country solarenga dos Thrills (“Another Sunny Day”), o boogie de Marc Bolan (“The Blues Are Still Blue”), os teclados soul de Stevie Wonder (“Song For Sunshine”) e até o espírito antigo dos próprios (a reprise de “Act of the Apostle” parece enxertada de “Seeing Other People”, o segundo tema de “If You’re Feeling Sinister”).

É certo que os Belle and Sebastian de 2006 não são já “Os” Belle and Sebastian tal como deles nos lembramos – os artistas enquanto jovens. Mas não deverá ser fraca consolação o facto de “The Life Pursuit” ser uma magnífica colecção de canções, a melhor dos Bellies desde “The Boy with the Arab Strap” (1998). Não há mal nenhum em subir na vida. A burguesia também tem as suas angústias. E há ainda muitas canções para sobre elas escrever.

FMS

3 Comments:

Blogger Peterpanic said...

Que album viciante !

2:23 da manhã  
Anonymous holden said...

que texto tão presunçoso e cínico e enfadonho

1:56 da manhã  
Blogger Maria Sombrinha said...

tooooo much biography between the records, that's what it is... ;);)
guess i agree with u.

12:49 da tarde  

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