segunda-feira, julho 25, 2005

O punk chega aos 30 (prosa dedicada a todos os leitores que nos acusam de sermos demasiado eighties*)


Como é que um tipo de 30 (quase 31, note-se) anos pode estar tão desejoso de fazer uma moshalhada qualquer (pode ser com as senhoras do salão paroquial) ao som dos londrinos Art Brut? Outra pergunta: por que é que um tipo aos 30 anos não está em casa de cachimbo na mão a ouvir um jazzinho porreiro - um Brad Mehldau, por exemplo - ao lado do seu labrador chamado Miles?
Ninguém sabe. E ninguém parece estar verdadeiramente preocupado com isso (há outras coisas para pensar – o défice, a fuga de Campos e Cunha, o penteado do Beto). Mas essa é que é essa. Estou maluco com o rock que se anda a fazer por aí. (Penso que o rock não estará assim tão maluco comigo; digo eu).
Até estou a dar em punk – eu que nunca fui de grandes entusiasmos anárquico-musicais tipo Clash e Sex Pistols. Os Art Brut (nunca me cansarei de escrever o nome desta banda, mesmo que já comece a roçar a patologia melómana e o imperativo de internamento) deram-me vontade de, para citar Roland Barthes, partir isto tudo.
É isso. O rock está de volta. Para, mais uma vez (é essa a sua eterna missão), aparvalhar as mentes. Basicamente, guitarra, baixo e bateria - e tudo a abrir. Há o rock mais duro, mais stalonniano, mais “e se a gente pegasse fogo à carripana da professora de matemática do Zé Ricardo?” e há o rock arty (praticado por aqueles gajos com nome de arquiduque, mas que também podia assentar bem num cabeleireiro da zona da Bica do Sapato - os Franz Ferdinand).
E há, para além disso, os Bloc Party - autores de “Silent Alarm”, um disco único, a rasgar (passe a citação de Botho Strauss). Neste momento, ouço uma compilação da Les Inrockuptibles, chamada justamente Le Retour du Rock – que conta com as simpáticas presenças de, entre outros, os The Rakes, os The Walkmen e os The Parisians (tudo bandas acabadas de sair da maternidade).
Estas barulhentas agremiações lúdico-culturais chegam de várias terriolas do globo. Temos rapaziada inglesa, escocesa, americana, francesa, canadiana, sueca, australiana, etc. (não, os já extintos Parkinsons não entram na fotografia de grupo). Que explora, com frequente pintarola, a sua dimensão rude – muitas vezes, matizada por informação vária em História de arte. Como convém para a pose, aliás.
A Les Inrocks sistematiza desta maneira as influências maternais do movimento: rock n’ roll; punk; postpunk, new wave; e art-rock (falta o bailinho da Madeira e o neovira, mas pronto, se calhar não tiveram tempo para mais).
Nem tudo é bom, confesso. Sobretudo para quem tem o Best Of dos Kinks à frente e acabou de ouvir o álbum dos Libertines. Até há coisas chatas (como, lembrei-me agora, algumas passagens dos álbuns dos aclamados Kings of Leon). Mas acumula, como se costuma dizer, uma energia do caraças. E é, como não se costuma dizer (pelos menos em artigalhadas sobre música indie), uma rambóia permanente. Faço, por isso, uma perguntinha final: quem é que acompanha este senhor idoso no stage-diving?

*portanto, aos nossos filhos e às nossas mulheres

(texto publicado no SARL, suplemento do Jornal dos Açores, e depois remixado em A Capital)
NCS

3 Comments:

Anonymous ma said...

count me in!

11:28 da tarde  
Blogger Inês Ramos said...

Nuno, gostamos da mesma música e já podias referir os The Mars Volta ;)

5:38 da tarde  
Anonymous Parkinsons said...

Hi, appreciated your mentioning Parkinsons Disease Symptom . I'm actually searching like crazy for information about Parkinsons Disease Symptom. My aunt had it and I understand there is a genetic connection. Very scary, but hoping for the best .
thanks.

12:35 da manhã  

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