sábado, fevereiro 12, 2005

O maravilhoso mundo de LCD Soundsystem

Jamaica, anos 50. Nas ruas de Kingston, dança-se ao som da música saída de pequenas unidades móveis que circulam pela cidade, discotecas ambulantes conhecidas por Sound Systems, que reproduzem os êxitos importados da América. Foi assim que nasceu o ska. E foi a partir deste que se desenvolveu o dub, o qual, anos mais tarde, desembarcaria em Inglaterra para contaminar o punk.

Colónia, 1969. Os Can, um grupo de rapazes com uma apreciável educação musical, admiradores de Karl Heinz Stockhausen e do psicadelismo britânico que então dava cartas, lançam Monster Movie numa limitadíssima edição. Quase todos aqueles que conseguiram pôr as mãos num dos 500 exemplares, formaram de seguida a sua banda. Com Monster Movie, uma espécie de versão teutónica de Velvet Underground & Nico, estava oficialmente aberta a profícua estrada do krautrock, sem a qual a música dos anos 90 teria tido metade do interesse que teve.

Universo, 1973. Goste-se ou não (eu gosto), a importância de The Dark Side of the Moon está muito para além dos recordes batidos em tabelas discográficas. A pop, sem querer fazer-se passar por erudita, pode ter mais de três acordes.

Londres, 1977. Os Clash - cujo nome se deve às famosas batalhas sonoras entre sound systems jamaicanos, as sound clashes -, incluem no seu primeiro disco o clássico reggae de Junior Murvin/Lee Perry, Police and Thieves. O punk passou a querer-se 'dançável'.

Nova Iorque, finais de 70/inícios de 80. Se o punk também deve servir para dançar, porque não fazer dele punk-funk. Os Talking Heads juntam atitude e energia tribais com conceptualismo intelectual, e, guiados pela bússola de Brian Eno, criam quatro enormes álbuns que definem toda uma época e influenciam as que se seguem. Ao mesmo tempo, no mesmo local, e igualmente sob a tutela sonora de Brian Eno, surge No New York - o manifesto inaugural da no wave.

Manchester, 1983. Na capital da depressão, Mark E. "The Fall" Smith lança Preverted by Language. Não é de todo preciso saber-se cantar para fazer um grande disco.

Detroit, anos 80. Mais do que da tentativa de encontrar a alma da máquina, o techno minimalista da Motown nasceu da contingência de ter que fazer música funk a partir de sintetizadores baratos.

Mundo, anos 90. O dub, originado nos sound systems jamaicanos, alastra-se a muita da música que vai sendo feita: do trip-hop ao jungle, da house ao techno, por quase toda a música electrónica, de Viena a Bristol, de Berlim a Tóquio, de Paris a Los Angeles. A sua influência é tão vasta que chega até a atingir personagens muito pouco prováveis como, imagine-se, Tom Waits (ouvir Sins of my Father do último Real Gone).

Nova Iorque, anos 00. Uma onda de revivalismo das correntes punk e no wave de finais de 70/inícios de 80 toma conta da cidade, para de seguida tomar conta do mundo. Vários são os grupos que surgem inspirados pelos Television, Suicide, e companhia. A Indústria não perde tempo e reedita os fundos de catálogo desse período áureo da pop, ao mesmo tempo que lança para o mercado inúmeras colectâneas. De repente, toda a gente gosta de Gang of Four, Liquid Liquid, D.N.A., A Certain Ratio, etc., etc., etc....
O futuro passou, definitivamente, a morar no passado.

Lisboa, hoje. A pequena súmula acima relatada toma forma no som que sai das colunas da minha aparelhagem. A tocar está Lcd Soundsystem, o sound system de James Murphy, americano, 34 anos de idade.
Pertence, tal como eu, à geração de 70. Cresceu, como eu, a ouvir música pop. Com a mesma atitude, de quem, à partida, não exclui nada. Se toca, dá para ouvir. Se dá para ouvir, ouve-se. Se se gosta, melhor; se não, paciência, passa-se ao próximo. Durante anos, ouviu tudo o que o tempo permitiu ouvir, e o resultado está à vista. Em Lcd soundsystem, James Murphy cita aquilo de que mais gosta, que calha também ser muito daquilo de que eu mais gosto. É uma viagem pela sua - que é também a minha - história da música pop.

Talvez seja só por isso que este disco me soa tão bem.

ENP

4 Comments:

Anonymous Pedro Robalo said...

Fantástico post.

1:19 da manhã  
Anonymous Pedro Robalo said...

Fantástico post.

1:19 da manhã  
Blogger Captain Hawk said...

És um parvo!

3:01 da manhã  
Blogger DRV said...

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

7:52 da tarde  

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