segunda-feira, março 13, 2006

E ainda mais este

Consultas de psiquiatria



Sejamos sérios. A definição de melómano do dicionário da Academia das Ciências de Lisboa é insuficiente e – bem pior do que isso – subtilmente optimista. Fala em “pessoa que tem grande paixão pela música”. Como se isso fosse uma coisa boa. E recomendável. Como se a vida do melómano não fosse uma vida de sofrimento e discriminação, sobretudo por parte dos media. O melómano é um Garcia Pereira que gosta de discos.
Aqui ficam, com o objectivo de desfazer idealismos e equívocos vários, algumas definições menos românticas. Melómano é o indivíduo que tem de subornar a empregada para que ela dê um arranjo no escritório. É a pessoa que está sempre a ouvir alguém (mesmo o tio-avô com comprovados problemas de surdez) a dizer “mete um bocadinho mais baixo, se faz favor”.
É o cidadão que, já com o orçamento nitidamente deficitário, ainda sai de casa com o propósito de comprar um disco novo. E que depois volta para casa com oito discos novos (chegou ao caixa com 15 CD’s nas mãos, mas depois teve problemas de consciência e recolocou-os melancolicamente e com alguma vergonha nas prateleiras). Melómano é, portanto, o cidadão que entra em casa com o saco da Fnac escondido dentro do casaco – e que tem de ocultar da família todos os vestígios das aquisições sonoras - preços, plásticos, etc. - em alturas de crise.
Melómano é a criatura que, sem que possa fazer nada contra isso, mais facilmente se lembra do nome do irmão do teclista suplente da sua banda favorita na adolescência do que do nome da namorada que teve na altura – e que hoje, muito provavelmente, é a sua mulher. É o personagem que, na subcategoria melómano alternativo, mostra-se capaz de falar entusiasmadamente de edições limitadas de bandas lituanas com nomes estranhíssimos como se falasse do Rodrigues dos Santos ou da última promoção do Lidl.
É o contribuinte que considera serviço público a transmissão televisiva de um documentário sobre uma altura dominada por uns sujos rapazes que não sabiam tocar e gostavam de dizer palavrões porque sim (vulgo época punk). E é o pai de família que se encontra em casa a dedilhar uma croniqueta de costumes musicais num domingo à tarde, enquanto a mulher e os filhos estão a ser felizes algures (se bem que isto também serve como definição para pessoa que deixa tudo para a última hora; ou seja, para “português”).
Sim, o Professor Daniel Sampaio tem nova companhia. A imprensa portuguesa conta com mais uma coluna sobre problemas do foro psiquiátrico.

NCS

2 Comments:

Blogger canto ainda mais escuro said...

toca a insultar o Vicente

11:58 da tarde  
Blogger Raimundo said...

Eu acrescento ainda: Melómano é o único tipo que não se importa de ficar em lista de espera quando telefona para as informações (118).


Excelente tasca...

12:11 da tarde  

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