quarta-feira, abril 20, 2005

Muda de sexo


Ó amáveis detractores, ó furibundos leitores, deixem-me partilhar convosco duas descobertas recentes na minha angustiada existência. Ambas emergiram desse poço obscuro e geralmente pouco asseado (onde nenhum WC Pato consegue chegar) que é a alma humana. E surgiram numa altura em que estava a ouvir o disco I am a bird Now, de Antony and the Johnsons. Confirma-se: com este Toni todo o cuidado é pouco.
Sim, ao ouvir a primeira cançoneta, Hope There´s Someone, descobri algo de muitíssimo grave: que ainda tenho sentimentos. Que, apesar de ser politicamente um liberal, tenho alojada no corpo uma coisa chamada coração. Dá para rir, eu sei. Mas não gozem, por favor. Eu sou pai de uma criança de oito meses.
E há mais, amiguinhos. Ao ouvir For Today I am a Boy, descobri outra dimensão oculta. Não, não é tão chocante como essa história de ainda ser capaz de me comover (nada é tão chocante quanto isso). Descobri que um dia destes ainda vou mudar de sexo. Eu sei, não surpreende: é uma banalidade, uma desilusão, mas mesmo assim tinha de vos contar tudo.
Percebi que a ideia de mudar de sexo até era porreirinha quando dei por mim a cantar entusiasmadamente uma letra que podia constituir o refrão do Hino do Transexualismo. Isto: «One day I’ll grow up and be a beautiful women/ One day I’ll grow up and be a beautiful girl». Portanto, faço aqui um pedido. Já que não consigo falar com filho (ou a filha) do Nené, peço-vos para me arranjarem o número da Roberta Close. (O dono de uma casa de strip em Massamá contou-me que agora há umas promoções nos telefonemas para o Brasil).
Para quem não sabe, o Antonieto é um rapazola nascido nas Inglaterras, mas que cedo emigrou para as Américas. Foi descoberto num bar nova-iorquino por um tal de Lou Reed – aquele que esteve na Casa da Música, não sei se conhecem. Vem do universo dos cabarets. Não percebo, aliás, por que é que o Carlos Castro ainda não o convidou para Gala dos Travestis, realizada todos os anos no São Luiz. Às vezes, o Carlinhos tem cada coisa.
Todo ele é uma voz do outro mundo. Entre o masculino e o feminino. Entre – dizem os entendidos em canto - Bryan Ferry e Nina Simone. Eu vejo mais a fusão entre o timbre de um Zé Adelino e o vibrato de uma Lady Marluce Barlof – presença antiga nas noites de Terça no Finalmente. Que atinge um dos seus pontos mais altos no gospel intenso e triste de Fistfull of love.
Presumo que tenham amigos que aconselham o melhor para as vossas viduchas. Será por isso escusado anotar que, apesar de todos os perigos para a saúde do desprevenido ouvinte, estamos perante um clássico. O primeiro era bonzinho (apesar de trazer um tema intitulado Hitler in my heart - o que não deve ser lá muito confortável), mas I am a bird Now é capaz de já ser, pela originalidade da sua beleza, um dos álbuns da década. Não exagero.
NCS (texto publicado no Domingo em A Capital)

3 Comments:

Blogger Clara said...

Cuidado Nuno... Isto está a ficar perigoso :) lol

1:55 da manhã  
Blogger Nuno said...

Pois está! Segundo se diz, o conservador Ratzinger, só para armar ao moderno, está a pensar convidar o Antony para assessor. Boas maluquices.

5:29 da tarde  
Blogger Contrabando de Ideias said...

É verdade sim senhor, "i´m a bird now" salvou a minha relação com a aparelhagem lá de casa.

10:28 da tarde  

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