terça-feira, junho 21, 2005

Arrastão sonoro



Vamos aos factos. Há uns meses atrás, num conspurcado posto de escuta da FNAC, dei uma brevíssima ouvidela no disco dos rapazolas. Provavelmente estava com fome, frio, sono, rinite, comichão nas gengivas ou com medo de me cruzar com o Fernando Aguiar. Não, não apercebi da força e do talento que havia ali dentro. E, enquanto erguia a bica cheia, comentei isso lá no café do bairro. De dedo mindinho apontado às estrelas, pois.
Só no outro dia fui finalmente convocado pela mais cristalina das evidências. Recupero aqui o poético momento: estava a cruzar uma esquina, com a mão direita na algibeira, a mão esquerda a segurar o 24 Horas e o pensamento em Kierkegaard, quando fui abalroado pelo volumoso corpanzil da dona Lubélia. Logo que caí redondo na calçada, a dona enfiou-me uns headphones nos ouvidos. Foram três horas ali no chão a ouvir o disco. Que acabaram quando descolei o post-it que tinha colado na testa: «Toma lá cuidado antes de falares! Ass: Clube de Fãs dos Bloc Party da Junta de Freguesia da Pena». (Já não me acontecia uma destas desde que a minha casa foi alvo de uma destrutiva investida pelo Clube de Arrumadores Fanáticos da Björk).
Do que mais gosto em Silent Alarm é justamente daquilo de que não apercebi numa ligeira audição – uma energia rara. Uma energia vulcânica. Imprimida, antes de mais, pelo frenesi da bateria. Depois há o vocalista. A voz do vocalista negro (coisa rara neste tipo de bandas e de música), a fazer lembrar ora o primeiro Robert Smith ora o Damon Albarn na sua versão mais rockeira. Apesar disso, fulgurante e original.
Vamos lá a ser claros: os Bloc Party entram nas nossas melancólicas vidinhas e levam tudo consigo. Silent Alarm é, na verdade, um arrastão sonoro. Um tipo ouve aquilo e sente os órgãos todos a mexer. A serem levados. Arrisco: é o som que vai marcar as festas indie deste Verão – que terão lugar, como não pode deixar de ser, um pouco por todo o mundo, em lugares subterrâneos e urbano-depressivos. Com charros do Dubai a passar de mão e mão.
Há aqui uma generosa e despudorada dose de vertigem adolescente. O que pode tornar ainda mais viciante o disco para quem já se instalou na casa dos trinta e dos quarenta. Dá logo vontade de dançar. De fazer sapateado. Coreografias epilépticas. De ir para o meio da pista abanar o pâncreas. Enquanto a filharada toda se esconde, cheia de vergonha, atrás das colunas.
Desçamos ao concreto. A sequência inicial - Like Eating Glass; Helicopter; Positive Tension; Banquet – é poderosíssima (Banquet é a música que mais quero passar na próxima festarola que organizar com amigos; umas três vezes, no mínimo). É mesmo o melhor disto tudo. Uma nota mais: a sétima, This Modern Love, no início, faz lembrar imenso os Cure de A Forest. Mas depois transforma-se em Ride puro. Sobretudo nas vozinhas frágeis a fazer coro. Sinal de que esta malta andou a estudar algumas das mais sublimes guitarradas indie do início dos 90. «Ah meus lindos meninos», diz, lírica e enternecida, a dona Lubélia. NCS
(texto publicado em A Capital)

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Assino por baixo este excelente comentário.
Uma das mais saborosas descobertas dos últimos tempos estes Bloc Party!

JR

10:32 da manhã  
Anonymous Ricardo Saleiro said...

Confesso que fiquei admirado com o facto de, entre nós, os Bloc Party terem sido recebidos de uma forma quase indiferente. Parece que finalmente estão a ter o feedback que merecem ( fartam-se de passar na 3 e tudo). E só estão a começar! Abraço

3:36 da tarde  

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