sábado, agosto 28, 2004

Revolução ou Sorte

Veio o Nuno reclamar, entre meia dúzia de fraldas acastanhadas, o direito a receber os discos que lhe são devidos. E fê-lo com toda a razão. Afinal de contas já vimos cair governos (somos do tempo do outro senhor), directores da polícia, chuva e aviões. Quer dizer, começamos a ter uma história e com ela, aquela antiguidade e sabedoria que merece o respeito dos mais novos.
Eu, pelo que me toca, não vou tão longe, se não quiserem ofertar-nos discos pois que não o façam. Mas, depois não se queixem da baixa venda de discos. Negligenciar as verdadeiras multidões que aguardam um sinal nosso para assaltarem as discotecas seguindo, cegos, os conselhos que lhes legamos, é uma opção de gestão discutível, mas é legítima.
O que eu exijo é que o Estado passe a apoiar os bloguistas com uma outra vitalidade. E, a devoção do nosso primeiro pelo E-Government é já a demonstração do reconhecimento da justiça das nossas reclamações.
Mas queremos mais, queremos, num futuro muito próximo, que o mundo passe a ser dirigido a partir de um Blog. Deste Blog, mais concretamente.
Para que esse sonho, que é de todos nós, possa concretizar-se rapidamente, apresento a nossa lista de exigências:

Subsídios vários, atenta a natureza e perigosidade de cada Blog;
Subsídios mais elevados para os Blogs que versem sobre música, por serem, notoriamente, de perigosidade mais elevada;
Incentivos sob a forma de compensação por cada minuto gasto na tarefa;
Que os discos, livros e cuecas, sejam dedutíveis no IRS;
Carros, aviões e barcos à disposição de cada Blog;
Férias pagas;
Muitas férias, muito pagas;
A criação urgente do Ministério do Blog;
A minha elevação imediata a Ministro do Estado e do Blog;
A substituição, com periodicidade mensal, do hino nacional, que ainda por cima tem uma origem anti-britânica, por uma música dos Smiths;
Ou dos They Might Be Giants ( o I Built a Little Empire é uma hipótese a considerar);
Troca da bandeira de Porutgal pela capa do LC dos Durrutti Column;
A substituição da GNR pelos GNR;
Da PSP pelo Sun Kil Moon;
Do Paulo Portas pelo Morrissey;
Do Ministério da Defesa e dos Assuntos do Mar pelo Ministério da Defesa e dos Assuntos do Marr;
Do Nuno Morais Sarmento pelo Julião Sarmento;
Isenção de pagamento de contas, de quaisquer contas, para quem colabore num Blog de Interesse Público;
O reconhecimento do Elevado Interesse Público deste Blog;

Meus amigos, só a satisfação, integral e incondicional, destas exigências permitirá levar o nosso saber até vós de uma forma digna e capaz.Para que triunfe esta nova revolução social, conto convosco, todos unidos num só grito: Quase Famosos do mundo Unite and Take Over.
CG

365

Isto está a ficar sério. Aproveito também para informar que o último número da revista 365 (Agosto/Setembro) traz, para além de uma entrevista com Piraña, a famosa personagem da série "Verão Azul", e de poemas de Maria do Rosário Pedreira, um página "Quase Famosos", onde podem ler três textos que não estão publicados aqui no blog. NCS

O único tipo no mundo que nos faz suportar o Kenny G



No passado dia 4 de Julho, fez um ano que morreu Barry White. Pretexto – mais um - para ouvir (por exemplo) “Love Songs”, álbum que contém grande parte dos hits destes compositor e cantor americano que cresceu numa zona de alta criminalidade de Los Angeles. Digo já para não tentarem traduzir os títulos dos temas para português, a menos que queiram correr o risco de ter resultados como: “Nunca me farto do teu amor, querida”; “Eu vou amar mais um bocadinho, querida”; (ou, o mais perigoso:) “Tu és a primeira, a minha última, a minha mais que tudo”. Sim, seria caso para dizer "volta, Clemente, estás perdoado" se não estivéssemos na presença de um génio. White, com a sua voz de barítono que tomou afrodisíacos, de Vitor Espadinha negro e imponente, assistiu certamente a mais relações do que um realizador de filmes porno da Califórnia. Ele é o padrinho de todas as noites de núpcias, de todos os engates de karaoke, de todas as conquistas de cruzeiro mediterrânico. Barry White é, lembremos, o único tipo capaz de tornar o registo Kenny G aceitável. Está tudo dito sobre o senhor. NCS

Divina dedicatória

De passagem por Lisboa, vindo de uma casa com luz, água e pão (mas sem net), aproveito para agradecer ao Francisco a sua divina dedicatória por alturas do nascimento do meu filho. Aguardo, pois, nestes dias de paternidade recente, sugestões de músicas para tornar mais sublime a vida do petiz. Quero também dizer aos milhares de fãs e groupies do Quase Famosos que, a partir de Setembro, vamos ser mais regulares na audição e consequente postagem. Continuamos, por isso, a aguardar o envio de discos e de convites para concertos em qualquer parte do mundo dos Go-Betweens, dos Red House Painters e dos Belle & Sebastian. Prometemos recensões decentes. Obrigado. NCS

sexta-feira, agosto 20, 2004

Público e Privado

A private face in a public place
Is better then
A public face in a private place


W. H. Auden

Volto, depois de uma paragem forçada pela incompetência electrónica, mas também pelo desmazelo, com o comentário que o Auden dedicou ao Quase Famosos e com a notícia do regresso dos Pogues.
E não é o regresso dos Pogues à música, ou aos discos, ou ao centro de desintoxicação da Cruz-de-Pau.
É o regresso dos Pogues ao nosso pais.
E, com os Pogues, mas à frente deles, volta o nosso amigo Shane MacGowan, ao que parece com o duplo propósito de recuperar o anel que perdeu no concerto do Coliseu, nos idos de 1989 e, ao mesmo tempo, encher-me de pancada pelo post que lhe dirigi.
Desde já me comprometo a devolver a argola, admito até não reagir quando o punho, o pé ou os poucos dentes do irlandês voarem na minha direcção. Convenhamos que é pouco provável que consiga atingir-me.
Mas em contrapartida exijo que toquem a noite toda, uma vez atrás da outra, o Rainy Night in Soho, na versão «desviolinada», que é como quem diz : sem violinos.
Para quem quiser cantar também, numa comunhão alcoólica que só é possível entre portugueses e irlandeses, entre o Whiskey e o abafadinho, fica a letra para depois não haver desculpas:

I've been loving you a long time
Down all the years, down all the days
And I've cried for all your troubles
Smiled at your funny little ways
We watched our friends grow up together
And we saw them as they fell
Some of them fell into Heaven
Some of them fell into Hell
I took shelter from a shower
And I stepped into your arms
On a rainy night in Soho
The wind was whistling all its charms
I sang you all my sorrows
You told me all your joys
Whatever happened to that old song
To all those little girls and boys
Now the song is nearly over
We may never find out what it means
But there's a light I hold before me
And you're the measure of my dreams
The measure of my dreams
Sometimes I wake up in the morning
The gingerlady by my bed
Covered in a cloak of silence
I hear you in my head
I'm not singing for the future
I'm not dreaming of the past
I'm not talking of the fist time
I never think about the last
Now the song is nearly over
We may never find out what it means
Still there's a light I hold before me
You're the measure of my dreams
The measure of my dreams


Agora é só treinar.
CG

terça-feira, agosto 17, 2004

Um tipo com sorte

Em almoço recente, o Nuno Costa Santos mostrava-se desiludido com "Absent Friends", o último Divine Comedy. Não o emocionava como os primeiros, queixava-se. Hoje, que lhe nasceu o Rodrigo, talvez o disco soe melhor. Pelo menos a segunda faixa, a qual deve ser ouvida com três quilos, quatrocentos e setenta gramas de pura alegria ao colo.

Charmed Life

When I hold you in my arms,
And look back on my charmed-life
My charmed life
I hope, I hope if nothing more
That one day you’ll call your-Life
A charmed life

Well I never really worried that much
About making lots of money and such
And I always seemed to land on my feet.
Though there’s been some difficult times
The good times where never far behind
I snatched all of my victories
from the jaws of defeat

When I hold you in my arms,
And look back on my charmed-life
My charmed life
I hope, I hope if nothing more
That one day you’ll call your-Life
A charmed life

Well the course of true love never ran smooth
They broke my heart, and I broke theirs too
And breaking up was so very hard to do
But I knew I’d find the one
And sure enough she came along
And not long after that along came you

Well sometimes this life is like being afloat
On a raging sea in a little row boat
Just trying not to be washed overboard
But if you take your chances and you ride your luck
And you never, never, never, never, never give up
Well those waves will see you safely to a friendly shore

When I hold you in my arms,
I know that this is a charmed-life
A charmed life

FMS

segunda-feira, agosto 16, 2004

Fundos musicais


Os tempos não estão para citações, mas li há dias que o Tenessee Williams escreveu que “na memória, tudo parece acontecer com fundo musical”. Pois, Nuno, Bali não tem ambiente musical. É verdade que por todo o lado se ouvem umas músicas, que não sei bem descrever, mas têm um ar metálico, tocadas em xilofones coloridos, em escalas que nos são estranhas. Mas a memória, a memória é o que conta e a memória que de lá trago é outra e tem um fundo musical. Aliás, tem um fundo musical que é o mesmo que tinha o ano passado e que vai ser provavelmente o mesmo quando puder, outra vez, regressar aquelas ilhas. O Jack Johnson, que toca na praia e que eu ouvi no carro e em casa durante todo o ano. O Jack Johnson que não é um músico excepcional, que não trouxe nada de novo às músicas, mas que tem dois discos em que se sucedem as canções perfeitas, a cheirar às ondas e ao tempo perfeito da Indonésia. A minha memória da Indonésia tem esse fundo musical e o Jack Johnson fica, por isso, para mim, entre outras coisas, como um músico perfeito.PAS

sexta-feira, agosto 13, 2004

you deserve to be adored

O Francisco convocou Madchester para falar nos Loto. Nem de propósito, my friend Alexandre comprou dois DVD's que recuperam os sonhos da minha/nossa adolescência. Também quero vê-los e revê-los. Com o mesmo florido entusiasmo com que assisti ao vídeo de “Elephant Stone”, em vésperas de ser lançado o disco que mais cantarolei na vida (a seguir ao "Fungágá da Bicharada”, bem entendido). NCS

quinta-feira, agosto 12, 2004

Blue Monday

Uma destas Segundas-Feiras estivais, fui ver os Loto, principal atracção de uma discoteca algarvia da moda, propriedade de dois irmãos célebres outrora como fundadores de uma conhecida claque de futebol e hoje por se darem bem nos negócios da pândega noctívaga. Gosto dos Loto. Gosto da substância, das canções orelhudas, da sensibilidade pop irresistível. E gosto da forma, do despudor com que assumem a genealogia e a tradição onde se inscrevem. Bandas há com que nos identificamos pelos temas, pelas opiniões, pela tristeza, pela ironia ou pela erudição. Com os Loto, identificamo-nos porque fazem aquilo que sempre quisemos fazer: escrever canções simples e inteligentes com os melhores amigos, canções para serem tocadas de palco em palco e cantadas por multidões. E identificamo-nos porque as influências são, em grande medida, as mesmas. Escutam-se os Loto e é impossível não pensar nos Happy Mondays, nos Charlatans, nos Stone Roses e na restante turba dançante da Factory e da Madchester. Coisa que os idiotas da novidade - almas tristes e frustradas sempre na ânsia de inéditos futuros - não percebem. Em todo o caso, estranhei a notícia dos Loto em actuação perante uma massa em princípio avessa às nuances da sofisticação artística. Seriam assim uma espécie de versão pop de Miguel Sousa Tavares, que escreveu um romance sério, o qual, porém, é mais visto nas praias do Algarve do que nos salões finos da movida cultural. A verdade, essa, é que os Loto se saíram maravilhosamente bem, debatendo-se primeiro com o alheamento geral e deixando o palco no meio de um entusiamo assinalável. A situação e a ambição, contudo, deixarão os cínicos exultantes de escárnio. 2004 não é 1980, Vilamoura não é Manchester e a discoteca dos irmãos Rocha não é o Haçienda. Certo. Mas os cínicos podem dormir descansados. É que os Loto, apesar do bom esforço, também não são os New Order. FMS

quinta-feira, agosto 05, 2004

PAS



Ele vem aí. Está para chegar. Aguardam-se histórias sobre o ambiente musical em Bali. Queremos saber o que é que se ouve por lá depois de uma surfada e enquanto se ergue o pisang ambon. Surf music? New Age Chic estilo Café del Mar? O “Feelings” do general Wiranto? Queremos saber tudo, Pedro. Conta-nos tudo. NCS

terça-feira, agosto 03, 2004

Os alternativos

Eles não vão ao Sudoeste para ver as papoilas saltitantes que dão pelo nome de Franz Ferdinand. Eles não vão ao festival para se elevarem aos céus alentejanos com a ajuda do xarope de efeito alucinogénio dos Air. Nem sequer descem até à Zambujeira do Mar para fazer um pouco de cardiofitness ao som da maquinaria dos Kraftwerk. Eles vão lá abaixo para ver bandas como a Confraria dos Zulus, no Palco Novos Mundos. Gosto deles. NCS

canções para ninguém

Devo ter sido das poucas pessoas que conheço a ter gostado da incursão de Perry Blake por terras californianas. Sim, achei que “California” era a opção inteligente e criativa de quem esgotara o registo de poeta soturno passeando entre estátuas partidas. Mas, confesso, este último “Songs for Someone” foi uma desilusão. Blake volta ao registo de um Black (aquele rapaz da “Wonderful Life”) não tão encantado com a existência e com arranjos que não nos impelem ao suicídio. O sonho californiano deu lugar à depressão irlandesa (gravada, como não podia deixar de ser, num estúdio francês). Dá a ideia que Blake foi atacado pelo vírus dos últimos Tindersticks – chato, repetitivo, sem ideias -, do qual devia livrar-se rapidamente. NCS

segunda-feira, agosto 02, 2004

Das Teorias e de Como Sobreviver-lhes

Há um fascínio nas teorias da conspiração a que não é fácil resistir; é um encanto que reside no facto de nos convencermos que sabemos mais do que as outras pessoas, que somos dos poucos a conseguir ver para além da superfície.
Há outras razões, para o encanto, como o medo. Um temor que a vida não seja consequência do quotidiano, mas da decisão de meia-dúzia de inomináveis que se reúnem em castelos mediavos pela penumbra, com o propósito de decidir o que há de acontecer a todos e a cada um de nós.
Já deu boa literatura, este medo, como o «Money» do Martin Amis, que não é mais do que uma teoria da conspiração em versão esquizofrénica, relatada na primeira pessoa, que no caso até são duas.
A morte do Kennedy; a ida à Lua; o 11 de Setembro; a guerra do Iraque, a morte da princesa Diana; a relação do Morrissey com esta última morte; o fim dos dinossauros, a morte do Hitler, a .... o quê....???? o que é que o Morrissey tem a ver com a morte da Diana?
Pois é, entre todas as teorias, eis que aparece um senhor que garante que a morte da Lady Di está toda prevista no conjunto da obra do nosso amigo Stephen Patrick, sobretudo no «The Queen is Dead», que serve um bocadinho como crónica da morte anunciada.
Apresenta como provas as letras, as capas dos discos, as entrevistas, os vídeos, os actores que aparecem nas capas e nos vídeos, tudo escrutinado e devidamente relacionado.
A coisa é tão estapafúrdia, que apetece mesmo acreditar, mas há um problema que mesmo o mais crédulo tem dificuldade em ultrapassar, passo a apresentá-lo:
Caro senhor criador da teoria, vamos aceitar que uma nave alienígena dirigiu uma mensagem ao jovem Morrissey e que este, desde esse momento, se dedicou a cantá-la e espalhá-la pelo mundo. Porque raio é que essa mensagem havia de versar a morte da princesa? Que que acontecimento é esse? Haverá para aí uma civilização mais avançada do que a nossa, cuja noção de mensagem passa pela actividade de espiolhar e comentar a vida da realeza cor-de-rosa, uma espécie de «Caras» versão cósmica?
Aparentemente, a revelação não foi tão bem recebida como merecia e desilusão levou o senhor teórico a abandonar a tarefa de iluminar o mundo. Mas isso não é novidade nenhuma, como argumenta o nosso amigo, também esta recepção estava já prevista no trabalho de Morrissey, senão vejam : qual foi o disco que veio a seguir ao «The Queen is Dead», qual foi?
Foi o «The World Won´t Listen», pois foi.
Para quem queira conferir, imprimir e encadernar, fica aqui o sítio da melhor leitura do Verão.
http://home.cogeco.ca/~morrissey/
CG