terça-feira, novembro 30, 2004

A vida sob a influência das canções



"estou convencido que desenvolvemos uma antena para as canções e que elas gostam de andar à nossa volta. Trazem umas amigas com elas e, quando damos por isso, estão por ali sentadas ao pé de nós, a beber-nos a cerveja e a dormir no chão da sala. E, ainda por cima, usam o nosso telefone... São umas sacaninhas ingratas e ordinárias..."
Tom Waits, citado por João Lisboa no Expresso. PAS

sexta-feira, novembro 26, 2004

Foi para isto?

Os Gift conseguem a proeza de me fazer repensar todos os dogmas sobre a bondade intrínseca da invenção da pop. Tudo neles são lugares comuns das bandas de merda. Os Gift nunca têm um novo disco, mas sim "um novo trabalho", falam caro e pomposamente, tratam as inutilidades que tocam como os executivos tratam o produto que vendem, apontam as datas das digressões em agendas profissionais, passam concertos inteiros sem suar, obcecados com o cenário, a postura dos músicos e, no entanto, raramente se ouviram canções tão insípidas, tão agoniantemente desinteressantes, tão pretensiosas, tão certinhas. Eu, aliás, nunca me deixei levar pela conversa do DIY. Porque o grande esforço está na distribuição e não na produção, e aquela nunca foram os Gift que a fizeram. Foi sempre uma multinacional. E porque o DIY era bonito era noutros tempos. Hoje, com as facilidades tecnológicas, serve não só o talento musical escondido mas também o talento empresarial visível. Dizem-me que os Gift gerem o barzinho lá em Alcobaça como também os New Order geriram o Haçienda. Certo. Mas, pelo menos, o Haçienda foi à falência.

FMS

quarta-feira, novembro 24, 2004

Die 500 besten Alben aller Zeiten

De forma a comemorar o seu décimo aniversário, a edição alemã da Rolling Stone decidiu, assim sem mais nem menos, elaborar a lista dos 500 melhores discos de todos os tempos. Para este projecto megalómano convidou umas quantas sumidades do mundo musical que, após coçarem a cabeça e afiarem bem os lápis, lá concluíram que “Blonde on Blonde” de Bob Dylan merece o rótulo de melhor álbum de sempre. É evidente que não se deve exagerar a importância de uma lista destas e o seu carácter absoluto, mas para futuras discussões acaloradas em salões de chá enfumarados é conveniente tê-la sempre à mão:

1 - Bob Dylan “Blonde on Blonde”
2 – The Beatles “Revolver”
3 – Rolling Stones “Exile on Main Street”
4 – The Velvet Underground “The Velvet Underground & Nico”
5 – The Beatles “White Album”
6 – The Sex Pistols “Never mind the bullocks …”
7 – Nirvana “Nevermind”
8 – The Beach Boys “Pet Sounds”
9 – Bruce Springsteen “Born to Run”
10 – The Beatles “Sgt. Pepper´s …”

E para aguçar o apetite e o sentido crítico, mais algumas posições finais:

The Smiths “The Queen is dead” (26.º), Radiohead “OK Computer” (30.º), Leonard Cohen “Songs of Love and Hate” (37.º), Pixies “Surfer Rosa” (59.º), Nick Drake “Five leaves left” (68.º), The Jesus & Mary Chain “Psychocandy” (95.º), Massive Attack “Blue Lines” (101.º), Jeff Buckley “Grace” (103.º), Tindersticks “Tindersticks” (107.º), The Libertines “Up the Brackets” (111.º)
e por aí fora….. REC

p.s. se alguém tiver curiosidade em saber por onde é que anda o "Vivo d´amor" de Frei Hermano da Câmara, envie por favor um fax para a nossa redacção.

segunda-feira, novembro 22, 2004

Toques

É bom voltar a casa depois de tanto tempo e perceber que ainda não houve desistências.
Eu cá vou andando, com compras mais ou menos intermitentes e uma descoberta que me vai transformando a vida: o meu telemóvel possui essa característica que anuncia a modernidade que é ler mp3.
Ora, desde que a descobri, divirto-me a insuflá-lo com música, eis uma lista mais ou menos actualizada:

Strangeways here we come – The Smiths (o disco inteiro);
Car-crash – a melhor música do mais subestimado dos grupos pop, os Auteurs;
Natacha – Czerkinsky;
In a Nutshell – Edwyn Collins «solo»;
Life of Surprises – Prefab Sprout;
Mack the Knife – 3 versões diferentes, Nick Cave, Louis Armstrong e o próprio Bertold Brecht ( é o toque politico);
To you – I am Kloot;
Xfm is ace – Boo Radleys;
45 rpm – Jesus and the mary chain;
Young Americans – The Cure ( a única razão pela qual podem ter sido mais importantes do que outros quaisquer, foi gravarem esta versão.).
I´ll Watch tour back – Eggman;
Leaving this island - Pastels.
É com estes avanços tecnológicos que damos pela velhice. Não há nada deste século no raio da lista.
CG

quinta-feira, novembro 18, 2004

Carta aberta



Meu caro Pedro,
O CD já veio com o correio e três audições depois já estou bastante convencido. É verdade que soa diferente da maior parte das coisas que costumo ouvir e que aquelas vestes e cabelinhos não lembram a ninguém. Mas as músicas, as músicas, que é afinal o essencial do que conta, prometem. Fica a faltar a prova dos nove: pôr no carro e ouvir a caminho da praia. O que fica para amanhã.
um abraço amigo,
PAS

terça-feira, novembro 16, 2004

Olhe, desculpe...

Apenas queria dar um braço a torcer: aquele amigo que me disse com ar instruído e dedo levantado que quem não comprou (ou gravou) o “Without You I´m Nothing” dos Placebo passou ao lado dos anos 90, tem toda a razão. Mesmo que me seja difícil confessar que ando um pouco atrasado. REC

segunda-feira, novembro 15, 2004

Jesus Shaves!



Na Inglaterra, ao contrário do alardeado pelas línguas verrinosas, não é só o Primeiro Ministro que se tem sentido hipnotizado com os encantos da América profunda do Sul alegadamente rude e inculto. Pelo que vi, nas ruas e em concerto, há um assinalável culto quase religioso da juventude da velha Albion em torno de três filhos e um sobrinho de um pastor de rebanhos de crentes que um dia encontraram o Diabo numa daquelas inóspitas e poeirentas encruzilhadas e que, de um álbum para o outro, apareceram misteriosamente de caras lavadas. A alma, pelos vistos, continua com barba e em lugar seguro no inferno.

FMS

domingo, novembro 14, 2004

Prémio Carreira

Gostei. Gostei do concerto do Rufus. Concordo com quase tudo que o PAS disse sobre a coisa (só não digo que concordei com tudo para manter a pose de crítico). Só achei um pouco exagerado que, no final, por diversas vezes, as pessoas se tivessem posto de pé para aplaudi-lo. Afinal, convenhamos, ainda é um pouco cedo para o rapaz receber o Prémio Carreira. NCS

Wonder Boy?



Ao princípio até estava a correr mal. A voz de Rufus revelava o travo desagradável que por vezes tem, o piano parecia excessivamente martelado. Mas com o passar das músicas a coisa foi melhorando bastante, ou estranhando-se menos. As músicas eram cantadas no osso, despojados dos arranjos que, principalmente em Want One, por vezes quase que deitam tudo a perder. Afinal, por detrás dos coros gongóricos, das cordas que chegam a lembrar o sinfonismo dos Queen, estava uma mão-cheia (duas até) de excelentes canções. Só com o piano ou só com a guitarra – e muito conversador entre as músicas, com ironia e boa disposição – Rufus foi revelando o melhor de si. Ainda que o público estivesse conquistado à partida, com direito a palminhas a marcar compassos que não eram desejados, a verdade é que fazer aquele concerto não deixa de ser um acto de coragem. Tocou quase tudo o que esperávamos que tocasse, mas para o fim ficou o melhor. Cinco minutos que prolongados fariam do concerto de Rufus um concerto inesquecível. De guitarra em punho. Uma perna ligeiramente à frente, pose de “rock star”, Rufus, no segundo ou terceiro encore, que quase parecia fora de programa (seria?), não ensaiado, avança para uma versão arrebatadora, sem chão, de “Go or Go Ahead”. A Aula Magna em silêncio e, no meio do silêncio, quando num desespero empolgado, Rufus arriscava o refrão, “look in her eyes”, que no original tem uma espessa camada de coros femininos que ficou provado é desnecessária, parecia que afinal ali estava mesmo o tão (auto)proclamado “wonder boy”. Quem consegue cantar uma música, nem que seja apenas uma música, daquele modo, poderá ser outra coisa? PAS

sexta-feira, novembro 12, 2004

Do you love me?



Hoje, todo o dia na Radar (97.8 mhz na região de Lx). Amanhã a solo, sem a grandiloquência que quase o mata, na Aula Magna e à tarde num show-case na FNAC do Chiado. PAS

um dia destes




Um dia destes, ainda vou escrever um post sobre os Cure. Ainda vou dizer que os Cure foram (e são) mais importantes para mim do que os Smiths. Ainda vou dizer que não há nada que me comova tanto como ouvir canções chamadas "In Between days" ou "One More Time" (eu sei que os títulos não ajudam, mas é mesmo assim). Esta semana, voltei a ouvir "Disintegration", em especial "The Same Deep Water As You" (a outra face do tema dos I Am Kloot que o Ricardo ouviu há dias ao pequeno-almoço). NCS

Soul em estado puro



É bom descobrir em casa um disco que tínhamos na prateleira e não conhecíamos. Aconteceu-me esta semana com "That's How Strong My Love Is", do soulman O.V. Wright. NCS

quarta-feira, novembro 10, 2004

A melhor música do mundo na semana passada



Your lightning's all I need
My satisfaction grows
You make me feel at ease
You even make me glow
Don't cut the power on me
I'm feelin' low, so get me high
(...)

shock me, versão red house painters, 1994, gravada, quase de certeza, para me extasiar na semana que passou, e atormentar na que agora já vai longa.
ENP

terça-feira, novembro 09, 2004

Short cuts II

sons que sentaram à minha frente no comboio para Bona, a ler o jornal)

Mogwai / Hunted by a freak [Happy songs for happy people]

Enquanto os I am Kloot me levam a passear por escapatórias bucólicas, os Mogwai criam bandas-sonoras urbanamente distorcidas. Embaladas pelo movimento do comboio, as vozes nubladas carregam o peso de um final de tarde cansado, e a melodia segue indolente e repetida, esforçando-se por uma energia que cedo abandona, contemplativa. Apesar de também serem escoceses, os Mogwai bebem definitivamente um chá diferente dos Franz Ferdinand e compinchas. REC

Short cuts I

(sons que tomaram comigo o pequeno-almoço)

I am Kloot / The same deep water as me [I am Kloot]

A canção perfeita para contemplar folhas outonais em quedas sussurrantes. Uma guitarra delicada, a voz indolente, uma batida a acariciar a manhã e no final os violinos a soprarem levemente, enquanto vou esfregando os olhos. A canção perfeita para mãos frias que se aconchegam em casacos, algures numa praia holandesa (à falta de melhor). REC

sábado, novembro 06, 2004

O melhor solo de guitarra solo


E o melhor solo de guitarra rítmica.
Heroin e Rock 'n' Roll, respectivamente.
[Rock 'n' Roll Animal, RCA, 1974]
ENP

quarta-feira, novembro 03, 2004

Stripper como nós

Escrevi isto sobre o último dos American Music Club. NCS