sábado, agosto 27, 2005

discussões revolucionárias sobre editoras discográficas








Começar a dar os primeiros passos no saudosismo dos tempos de liceu, sem problemas de consciência, é um dos prazeres desta idade quase trintona. Agora que nos esforçamos por ter a agenda sempre cheia, é cada vez mais difícil voltar a reunir o grupo com ares de irmandade secreta, sempre com discos importantes debaixo do braço. Deve ser por isso que nos começamos a casar. Entre brindes aos noivos, com gravatas aperaltadas a substituir as Doc Martens, podemos, assim, retomar as poses sérias e o fervor clubista nas discussões sobre as melhores editoras discográficas.

Regressam assim os defensores da estética da 4AD, os adoradores do som da Factory e, inevitavelmente, a frase de que antes é que era. No meu canto, de copo de whisky na mão, volto a levantar o dedo e relembrar a Creation Records. A Creation de Alan McGee, que lançou os Jesus & Mary Chain e os Teenage Fanclub. Que me permitiu fechar-me no meu quarto adolescente em contemplações etéreas ao som de My Bloody Valentine. E me fez ensaiar os primeiros passos de dança desajeitados com os Primal Scream. Uma editora com aquela aura de perdedores idealistas, que apenas não conseguiu elevar a mito porque decidiu contratar uma banda com dois irmãos mal-encarados de Manchester que criaram a banda sonora perfeita dos anos 90 (“Definitely Maybe” continua na lista dos meus discos preferidos).

Apesar disso, conseguiu falir e dar-nos a oportunidade de criticar as cruéis leis do mercado que engolem os projectos independentes. Numa altura em que os ouvidos se afastavam das guitarras e dos três minutos de rock puro, McGee manteve-se fiel à sua educação punk. Um punk com fatos da Prada, é certo, mas com o espírito intacto. Ao lançar os The Hives na sua nova editora, a Poptones, e sobretudo como manager dos Libertines, contribuiu significativamente para relançar a cena rock britânica nas aparelhagens órfãs. McGee partilha a atitude das novas bandas como os The Others e os The Rakes, simples de descrever: “they don´t give a fuck”, ou seja, o tipo de doutrina que filósofos como os Oasis dominaram na perfeição. REC

publicado no suplemento SARL do Jornal dos Açores

sexta-feira, agosto 19, 2005

O regresso de Arthur Russell


Não, desta feita não é uma reedição do que havia sido esquecido de Arthur Russel. É mesmo um disco novo, naturalmente não de Arthur Russell, mas, sim, de Owen Pallett, conhecido por colaborar, com o seu violino, com os magníficos Arcade Fire. E o que o rapaz canadiano faz é simples: pega no instrumento e na voz no preciso lugar onde Arthur Russel os tinha deixado (nos tinha deixado, melhor dito - ainda que no caso fosse o violoncelo). Simples é a palavra. Loops de violino com voz frágil. Um disco que, a crer no inlay, foi feito nos últimos seis dias de 2004. Um daqueles casos em que mais dias poderiam servir para aperfeiçoar, mas, teriam, certamente, a indesejada consequência de retirar o empenho simples, meio sujo e entusiasmante. Ah, o rapaz assina como Final Fantasy, tem um site que merece ser visto, e o disco chama-se “has a good home”. Considerem-se notificados. PAS

A melhor sequência do mundo nesta semana:

angel eyes (roxy music), satisfaction (whomadewho), optimo (liquid liquid), i'll house you (jungle brothers), we have come to bless the house (severed heads) e how much are they? (jah wobble).

Devo-a a Mo Becha e David Fouquaert, mais conhecidos por The Glimmers, uma dupla belga que mostra como se fazem bons discos sem precisar de tocar em qualquer instrumento. ENP

A Ananana é fixe


The day the Earth met the ... Rocket from the Tombs
(live from punk ground zero, Clevland 1975)


Nothing is...
Sun Ra (1966)


The Headphone Masterpiece
Cody Chesnutt (2002)


Bang Bang Rock Roll
Art Brut (2005)

Três nice prices e um not so nice. ENP

quinta-feira, agosto 18, 2005

Em Diferido




















When she sang about a boy
Kurt Cobain
I thought what a shame it wasn't about
Tom Verlaine


When she sang about angels; The Go-Betweens



Dia 2 de Setembro na Aula Magna, os Television de Tom Verlaine.

O verdadeiro Quase Famoso prefere perder um braço, uma perna, um rim e um post a deixar de vê-los.

Aceitam-se reservas.


C.G.

quarta-feira, agosto 17, 2005

Para recordar agora



(há que sobreviver às motas, o que interessa vem a seguir) PAS

Paredes de Coura

para os desafortunados que não estão em Paredes de Coura, aqui fica um aviso amigo: A sic radical tem transmitido alguns dos concertos em directo. E, hoje, lá mais para a noite tocam, entre outros, os Arcade Fire. O programa está aqui. PAS

Uma má notícia


Os Beta Band acabaram, mas como uma má notícia pode ser compensada por uma notícia mais ou menos, vão lançar uma compilação e um disco ao vivo. PAS

sábado, agosto 13, 2005

Oasis foi fixe

(Enquanto o Chico Mendes da Silva não chega dos Algarves para escrever um calhamaço sobre o assunto, utilizemos o velho método das pautas). De 0 a 20 dava 14 (talvez até 15) ao concerto dos Oasis no Sudoeste. Como até estou numa fase noisy, gostei da onda Rock'n'Roll puro e duro. Comovi-me à brava com o Champô Supernova. E apreciei alguns temas do novo álbum - que não conhecia. Sobretudo um, cantado pelo Noel, que faz imenso lembrar o senhor Dylan. NCS

Concerto dos Humanos para telegrama

Grandessíssima homenagem ao universo Variações. Todos eles muito seguros e regabofeiros. David Fonseca com pica. Camané e Manelinha Azevedo do melhor. A certa altura chorei. NCS

Consciência aliviada



Sim, vou de férias. Mas iria de consciência pesada se não viesse ao QF gritar (do altinho deste quatro andar sem elevador) que o concerto dos Kasabian no Sudoeste foi muita bom. Que os gajos têm uma garra do caraças. Que são uma grande banda. Que não se intimidaram com o facto de fecharem o dia no palco principal - e de, para apresentarem ao mundo, só terem um álbum editado. Há grupos dos quais começamos a gostar mais porque vimos como é que se portam ao vivo. Este é, definitivamente, um deles. Os LCD Soundsystem, outro. NCS

sexta-feira, agosto 12, 2005

Desculpem a insistência



ENP

quarta-feira, agosto 10, 2005

Da Escócia com amor


Houve um tempo em que os singles eram reis e senhores. Acontece que os tempos mudam, pelo que esse já lá vai. Ainda assim, cada década tem uns quantos resistentes do formato. Os oitenta tiveram nos The Smiths a banda de singles por excelência (na verdade, a banda por excelência, tout court). No caso, os álbuns serviam apenas para juntar o que havia sido editado nos meses anteriores e tornar mais fácil a vida do consumidor. Os Belle and Sebastian – que cumprem com grande dignidade o trabalhinho de apanhar o que resta dos anos oitenta e, em particular, a herança smithoniana – têm, desde sempre, esse hábito em desuso de lançar singles, ou E.P.’s se preferirmos.
A opção é legítima, não fora dar-se o caso de dificultar a vida ao fã mais ambicioso, que tudo quer conhecer e comprar. Contudo, nunca é tarde para corrigir o erro. Foi isso que a banda agora fez. Depois de um disquito assim para o sofrível, resolveram juntar os E.P.’s perdidos, lançados pela sua editora mãe (Jeepster), e deram à luz, “Push barman to open old wounds”. O disco vem embalado em termos, com um booklet como deve de ser e junta 25 músicas. E aí começam os problemas. Os primeiros temas são de 1997 e os últimos, mais recentes, de 2001. A questão é simples: os Belle and Sebastian fizeram coisas superlativas em 1997 e coisas assim para o sofrível em 2001. A razão desconheço-a. Mas do iniciático “The state that I am in” (quem resistir a cantar esta canção padece de um mal de espírito qualquer) até às últimas músicas vai uma distância do tamanho da sua Escócia natal.
E pergunta o leitor: em que é que isto diminui o disco em apreço? A resposta é de uma limpidez cristalina, em rigorosamente nada. Os Belle and Sebastian são uma banda de que ou se gosta ou não se gosta. Não há espaço para a indiferença e esta compilação serve para se gostar ainda mais dos rapazes de Glasgow. A música é, como quase sempre, feita de um boculismo verdejante e de um lirismo exacerbado. Melodias trauteáveis, vozes efeminadas a contar-nos as suas “shelf lifes”. 25 músicas depois, não deixa, contudo, de espantar que, para além de três primeiros discos perfeitos (Tigermilk; If you’re feeling sinister e The boy with the Arab strap), ainda houvesse tudo isto para ser ouvido. Ouçam e vão ver que, na última década, não foi inventada banda sonora melhor para nos apaixonarmos. Um prazer rídiculo, é verdade, mas não irrelevante, há que convir. PAS
publicado no suplemento SARL do Jornal dos Açores

sexta-feira, agosto 05, 2005

Acontecerá no Sudoeste

Hoje à noite, no Sudoeste, há um concerto por demais ansiado e que se prevê histórico: os Oasis tocam sucessos de ontem e de hoje para uma multidão em êxtase. Eu conto lá estar. No Sudoeste, entenda-se. A ver e ouvir, pela segunda vez em dois meses, James Murphy com o seu LCD Soundsystem e restante malta da DFA, que, graças a Deus, tocam à mesma hora que os famosos irmãos Gallagher.ENP

quinta-feira, agosto 04, 2005

Logo à noite - Orquestra Imperial


"Caro Pedro,
a orquestra imperial é uma baile de samba com roupinhas novas, atente para a
maravilhosa cantora Nina Becker, que será, em breve, a coisinha mais rica de
escutar no idioma..
Passa graxa nas juntas que o som é pra remexer.
Boas
Julio"
De um mail recebido do lado certo do Atlântico. PAS

"O grupo é formado por gente que é destaque na cena pop brasileira, como Rodrigo Amarante, do Los Hermanos, Moreno Veloso, Nina Becker e a cantora e atriz Thalma de Freitas, além de um timaço de instrumentistas como os produtores e fundadores do projeto Berna Ceppas (teclados e percussões) e Kassin (baixo), e também o baterista Domenico Lancellotti (parceiro de Kassin e Moreno, no projeto +2), os guitarristas Nelson Jacobina (parceiro de Jorge Mautner), Rodrigo Bartolo (Arnaldo Antunes e Duplex) e Pedro Sá (Caetano Veloso), o trombonista Bidu Cordeiro (Paralamas e Reggae B) e outros craques. Também estão presentes expoentes do samba como Monarco, Luiz Carlos da Vila, Nelson Sargento, Toninho Gerais e Marquinhos de Osvaldo Cruz."

quarta-feira, agosto 03, 2005

Jealous guys

Interrompo aqui o silêncio estival para comunicar que ontem, num conhecido poiso da noite pedante do Algarve, estive a roçar ombros com este senhor. Perdão: com este Senhor.



FMS

terça-feira, agosto 02, 2005

Going black again (ou de como o meu Verão é mais negro que o vosso)

Algumas sugestões de Verão e de Praia (não devia ser a mesma coisa?), como que para mostrar que por aqui nem só as guitarras ordenam.

Common – Be



Imaginem que o Marvin Gaye renascia e queria modernizar-se. Tinha poucas opções para além de se juntar à comunidade de mellow rappers (será que existe tal coisa?) e swingar por cima de uma batida sincopada. O Ricardo Gross já disse aqui o que havia a dizer sobre este disco. Não é perfeito, mas é muito bom. “não é obra-prima, antes a obra-prima possível”. Tem de tudo – hits cheesy (faithful) e temas mais arriscados (e também mais conseguidos – que servem para nos lembrar que o D’Angelo nunca mais faz nada). Mas, acima de tudo, tem qualquer coisa do Marvin Gaye (e não é só o look). Pode parecer uma heresia, eu sei. Para ouvir de manhã, antes de ir para a Praia.


The Motown Remixed


Esqueçam a capa assustadora e o conceito dissuasor. O filão dos remixes foi chão que já deu uvas, é verdade. Mas este disco serve para abrir uma excepção (e entretanto confirmar a regra). A verdade é que é muito pouco remixado. A ideia é simples e como muitas das ideias simples, dá-se o caso de funcionar. Junte-se num disco algumas das melhores vozes da Motown (a abrir, os Jacksons 5 com o Michael a cantar no tempo certo, com um swing espantoso, tudo ainda natural; Supremes; Marvin Gaye; Stevie Wonder) e, em lugar de reconstruir as músicas, limite-se a intervenção remixadora ao realçar de alguns elementos: uma linha de baixo mais saliente, uma batida que aparece onde não existia. O resultado é um disco surpreendentemente agradável (um adjectivo que, por vezes, funciona como elogio). Para ouvir no carro, a caminho da Praia.

Rocky Marsiano – The Pyramid Sessions


A ideia não é nova. Aliás, a ideia é perigosa, pois tem um enorme potencial de espalhanço ao comprido. Acontece que no caso funciona. D-Mars, julgo membro da banda de Hip-Hop tuga, Micro, mas de origem croata (o nosso Suba, portanto), junta uns loops jazzísticos com umas batidas de Hip-Hop e faz um grande disco (tal como o do Sam the Kid de há um par de anos, ainda que este disco seja mais orgânico, com músicos de verdade). Para ouvir quando se chega da Praia.

The Soul Gospel


Se o disco da Motown assusta quem para ele olha, esta edição da Soul Jazz tem o efeito contrário. Um booklet cuidado, uma capa irrepreensível e uma escolha de músicas exemplar. Experimentem gostar e depois vão ver como a coisa se entranha. Não há nada novo, nem nada de novo. São velhos temas soul puros, cantados com uma amplitude que é pouco comum nas outras músicas e que são, em boa altura, recuperados (e com um som limpo). A Soul Jazz tem feito mais pela memória da música nos últimos tempos do que o resto das editoras todas juntas. E, como é sabido, o futuro está na memória. Ouçam isto e vejam lá se não se percebe melhor tudo o resto que se tem feito nos últimos anos. Para ouvir à noite, depois de depois de chegar da Praia.
PAS

segunda-feira, agosto 01, 2005

Da série Música para Voltar da Praia


Qualquer uma deste rapaz.
NCS