terça-feira, setembro 28, 2004

39 Beacon Blue Pl.

Não faz parte do meu panteão. Pelo menos, não sobe ao patamar de importância de um Dylan, de um Miles, de um Bowie, de um Caetano Veloso ou de um Leonard Cohen. Mas está logo a seguir, na mesma prateleira que David Sylvian, Frank Zappa, Hank Williams, Peter Hammill, Neil Young, Brian Eno, Neil Hannon e mais uns tantos.
De Tom Waits gosto de tudo. Não porque todos os seus discos sejam grandes discos – assim de repente, lembro-me de alguns menos extraordinários, como o primeiro Closing Time (leve, demasiado leve), Frank Wild Years (muito Weilliano para o meu gosto), One from the Heart ou os últimos Alice e Blood Money – mas, porque em todos eles sem excepção se respira o ar contaminado por um pecado carregado de dignidade – discos bêbados e desconsolados, na primeira fase (à qual chamo a fase Edward Hopper); discos teatrais, estranhos e cacofónicos, na segunda.
Waits distingue-se musicalmente por ser um inovador que parte dos géneros da grande tradição americana - o jazz, o songbook, o blues, o country - para algo de que quase só ele é capaz, e distingue-se liricamente pela capacidade de criar personagens, ambientes e lugares, peças de uma neverending story da low life na América.
Destaco os lugares. Os lugares são importantes na obra de Tom Waits. Os seus discos são, também, discos de lugares: da Nova Iorque onde vive à Califórnia onde nasceu, toda a América - a real e a que acontece na sua cabeça – é sónica e poeticamente percorrida, transmitindo a quem ouve sensações que apenas in loco seria espectável experimentar: o frio gelado de uma estrada do Wisconsin, a tristeza das ruas e avenidas desoladas na madrugada, a ressaca num motel bera, a fome que é morta numa roullote em Malibu, o cheiro agonizante de uma qualquer imunda Chinatown, as saudades da New Orleans onde nunca se esteve, o bebop mal pago que sai das portas da Rua 42, a frustração num bordel da downtown de Mineapolis, a magia da Las Vegas que não existe, um beco no Harlem, a solidão numa bomba de gasolina ou a desesperança numa doca pouco iluminada. Lugares incógnitos em Estados esquecidos, qualquer sítio onde haja bourbon ou rum para ajudar a esquecer que o dia seguinte é apenas um dia a mais para queimar. É o sonho americano virado do avesso - a América como ela também é.
No mês que começa depois de amanhã, será lançado o novo disco de Tom Waits. Não sei (embora duvide) se o que aí vem está ao nível de um Heartattack and Vine, de um Raindogs ou de um Bone Machine. Mas mau não é de certeza. Desta vez parece que não teremos direito ao piano que andou a beber, mas não faltará a voz de um Louis Armstrong funky inspirada pelos espíritos encruzilhados de Cole Porter e Captain Beefheart.
ENP

o anarca deprimido

Nem de propósito, soube hoje que Malcom McClaren, o fundador e manager dos Sex Pistols, acha que a sua obra é um rotundo fracasso. Mais: que a única coisa que fez na vida foi transformar o fracasso numa “oportunidade artística”. Ok. Não concordo, mas está bem. Sim, o mais intrigante de tudo isto não são as declarações de um anarca deprimido. Estranho, estranhíssimo é saber que as declarações de Malcom foram proferidas num congresso punk que terminou no domingo em Kassel, na Alemanha. Leram bem: congresso punk. O que é que se seguirá? Rave de frades? Sarau de malta do tunning? Enfim. NCS

segunda-feira, setembro 27, 2004


Sim, no princípio era a capa. E, apesar de fazer, não tarda, 25 anos que nasceu o London Calling (leia-se, a propósito, isto), que é um disco brutal, fantástico, óptimo para ter no carro, etc e tal, o que nele mais gosto é mesmo a capa. Uma foto que parece ser a imagem acabada do que foram os Clash. Não é tecnicamente perfeita, a luz podia ser melhor, tem grão a mais e está desfocada. Mas o que é que isso interessa quando se transborda energia, raiva e força. Na capa e na música, o London Calling parece um manifesto feito para nos dizer que ser perfeito, tocar e cantar bem são aspectos absolutamente irrelevantes. Há 25 anos, como hoje, o essencial era literalmente saber pegar como deve ser numa guitarra. Até porque o resto é muito mais fácil. E, como bem atesta a foto do Paul Simonon, aqueles quatro rapazes sabiam fazê-lo. PAS

sexta-feira, setembro 24, 2004

Lado A, Lado B

Em termos musicais, podia dividir o meu dia de ontem em duas partes:

O lado feliz - a audição de “The Build-Up”, majestosa balada dos Kings of Convenience.

O lado infeliz - o visionamento do videoclip de um banalíssimo tema do último Nick Cave. NCS

quarta-feira, setembro 22, 2004

Várias faces



da mesma moeda



: (...) So, actually playing music is probably what I do the least.

ENP

terça-feira, setembro 21, 2004

Um grande passo atrás



Da Phantom para a Blue Note esperava-se melhor. Só que, de Jet Sounds para Other Directions, Nicola Conte regrediu. De um som original, fresco, onde a bossa nova, as tablas e cítaras, as descargas latinas e os samplers de Lalo Schifrin, se misturavam sob arranjos sónicos apurados, para um jazz de pacotilha onde à banalidade se segue mais banalidade.
Comparar Other Directions, ainda que ao de leve, com Miles, Chet Baker ou o que quer que seja do período áureo do cool, é brincar com quem trabalha para comprar discos.
Para se perceber bem a falta de inspiração de Conte valerá a pena ouvir a sua versão de Le Depart, uma composição de Krzystof Komeda, logo seguida de uma qualquer faixa do disco Litania de Tomasz Stanko, inteiramente dedicado à música daquele grande compositor polaco. O mesmo autor, diferentes intérpretes, um mundo de distância.
ENP

Birthday of a ladies’ man


Há cerca de quatro e certamente não mais de cinco músicos, cantores, ou que lhes quisermos chamar, que servem para marcar um ponto em que há o antes e o depois. O antes e o depois de os ouvir. Eu não sei exactamente quando é que ouvi pela primeira vez o Leonard Cohen, mas sei quando foi a primeira vez que reparei que estava a ouvir o Leonard Cohen e, mais importante do que isso, sei que depois passei a dar outra atenção a todas as músicas que ouvia. Por algumas características que hoje sei reconhecer, mas também por muitas que permanecem para mim indistintas, o Leonard Cohen passou a ser uma das medidas de todas as outras músicas. Hoje, ele faz setenta anos e terá sido aí há uns dezasseis que estive num concerto, de que guardo uma memória absolutamente nítida, que ele deu no Coliseu. Já era na fase do I’m Your Man, em que revelava uma capacidade única de envolver as canções nuns arranjos meio-foleiros, mas que nas músicas dele soam como que necessários. Desde aí, e ao mesmo tempo que a voz foi ficando ainda mais marcada pela rouquidão, tem sido sempre assim. Sintetizadores anacrónicos, coros arriscados, e melodias pouco entusiasmantes. Mas, no momento em que as palavras se seguem umas às outras, tudo o que não tinha sentido passa a tê-lo. As canções são naturalmente sempre sobre o mesmo: o sexo, a religiosidade e os amores entre os homens e as mulheres. Aliás, juntamente com o Chico e o Jacques Brel, o Leonard Cohen é o melhor tipo a escrever canções sobre o mundo dos homens, conseguindo ao mesmo tempo convencer as mulheres que os homens, sendo absolutamente homens, até podem ser uns tipos decentes e interessantes. The Stranger Song, que é do primeiro disco é talvez um dos exemplos mais acabados disso mesmo. Escusado será dizer que se me fosse possível só ouvir mais três ou quatro músicas até ao resto dos meus dias, tinha de escolher uma dele. Para o que desse e viesse. Ah, e a foto, que é do inlay do Songs From a Room, sempre me intrigou. Vá lá saber-se porquê. PAS

segunda-feira, setembro 20, 2004

What a waster, what a fuckin' waster



O Pedro Robalo, um dos fundadores da blogosfera, foi um dos poucos que viram a História passar-lhe à frente dos olhos e, a meu pedido, aceitou contar o que viu.

Então cá vai.

Que «os Libertines ao vivo são uma banda órfã de Pete Doherty» terá sido a coisinha mais acertada que o semanário Blitz alguma vez proferiu acerca desta excelsa banda. Apesar de nas últimas semanas o Blitz nos ter apresentado os factos e as bandas que configuram toda uma «nova cena» pós-britpop, em que os Libertines assumem papel dianteiro, a verdade é que esta publicação (será exagero generalizar a toda a crítica nacional?) nunca foi muito à bola com as criações de Pete Doherty, Carl Bârat e cúmplices. Para os doutos jornalistas da casa, «Up The Bracket», disco de estreia de 2002, não passou de «uma nota de rodapé» desse mesmo ano, sendo os Libertines «a resposta britânica aos Strokes», pois que de garage rock estávamos necessitados. Estamos conversados.

Por terras da Great Albion a cantiga é outra. Up The Bracket redundou em sucesso estrondoso. Os gigs dos Libertines sucediam-se a ritmo escaldante, fossem eles em pubs refundidos a rebentar pelas costuras como três-noites-três de London Astoria esgotadas. A imprensa não foi comedida no verbo: «a banda mais importante da nossa geração», «o álbum mais aguardado da década» (sobre The Libertines, recentemente editado) ou «os Sex Pistols do século XXI». Alan McGee, manager da banda e alguém com predicados nestas andanças, disse que os Libertines eram «a banda culturalmente mais relevante» com quem tinha trabalhado.

Gente estranha esta, povo de hooligans confusos e de gosto abstruso. Eles põem «The Libertines» no número 1 da chart de álbuns, seguido de «Songs About Jane» dos Maroon 5. Na mesma semana, nós pomos os O-Zone (sim, aqueles tipos de leste que esgalharam o hino dance-chunga «Dragostea Din Tei») e Juanes (sim, esse songwriter de finíssima estirpe). Mais uma vez, estamos conversados.

Voltemos ao concerto. Que se ficar para a história não será por ter sido aquilo que usualmente se designa por «um grande concerto». Mas acredito que ficará para sempre na memória de quem lá esteve. Porque os Libertines são estupidamente sinceros, incapazes de encenar. Maus entertainers. Excelentes músicos. Com alguma queda para ícones.
É mais que visível, é palpável – a banda encontra-se dilacerada pelo afastamento provisório de Pete Doherty, a braços com uns problemitas de crack. E a sua actuação difusa espelhou isso mesmo: cerca de vinte temas despejados em sessenta e poucos minutos, conversa inexistente, electricidade comedida. Apesar de tudo, o trabalho das guitarras é fantástico. Os solos estão no sítio, a coordenação é perfeita. Carl Bârat nas vozes é pouco melhor que sofrível. Sentimo-lo sozinho no palco, talvez constrangido pelo peso de um protagonismo que costuma partilhar com Doherty. Fuma que se desalma, bebe whisky às goladas, e isso nota-se na sua postura meio abananada, que encarna na perfeição a imagem do «fucked-up rocker» sempre associada aos Libertines. John, o baixista, sorri mais não muito, olha para o infinito como quem não está neste mundo. Gary, o baterista negro, incansável e frenético, é o tipo simpático e em melhores condições. Há ainda o guitarra-ritmo substituto Anthony Rossomando, que fez aquilo que lhe era pedido.
Em termos de canções, o concerto abriu com Don’t Look Back Into The Sun, single orelhudo e irresistível editado entre álbuns. Do primeiro disco pontificaram momentos pop memoráveis – Death On The Stairs, Time For Heroes, Tell The King e Up The Bracket. Também não faltaram What A Waster, I Get Along, Boys In The Band e Vertigo. Do segundo trabalho, destaque para os inevitáveis Can’t Stand Me Now e What Became Of The Likely Lads, face e reverso de uma moeda cunhada a amor e ódio, que não é mais que a desventurosa história, de desfecho em aberto, dos Libertines. Menção ainda para Narcissist, The Saga e Road To Ruin.
Canções, cançõezinhas, impregnadas daquela pop de substrato britânico a que insistem chamar de «aristocrática». E rock de guitarradas, das boas, que condensa em peças de três minutos mais de trinta anos da melhor escrita de canções do género – falemos de gente como os Jam, os Buzzcocks, os Clash ou os Kinks. Isto para não nos perdermos num namedropping mais extenso.

Em suma, rasgos de génio musical reproduzidos num concerto cheio de defeitos. Mas não foram os Libertines a banda pop que nos (re)ensinou a amar os defeitos?

Pedro Robalo

Em breve: a minha versão dos acontecimentos, logo seguida de "E se um dia uma estranha lhe oferecesse cocaína numa casa de banho mista da discoteca mais debochada de Copenhaga?"

FMS


Forever Young



Um tipo moderno manda vir discos e livros da Amazon (ou melhor, de sites ingleses e americanos que ninguém conhece). Um tipo moderno vai fazer compras à Fnac ao fim da tarde de um dia de semana. Um tipo moderno não vai ao Corte Inglés num sábado (à hora de almoço) comprar discos. Eu não sou um tipo moderno. O que é que trouxe? Saldos: “Ragged Old Flag”, de Johnny Cash, “Lester Young 1936-1943”, “The Last Broadcast”, dos Doves e “Harvest Moon”, de Neil Young. Um disco que já devia ter comprador há mais tempo: “Hats”, dos Blue Nile (que me satisfaz o apetite enquanto não me chega o último); e “Motorcade of Generosity”, dos Cake, seguindo uma sugestão do Diogo. Já passei os ouvidos por quase todas as compras de fim-de-semana. Mas há uma que teima em anichar-se nas entranhas da aparelhagem. Nesta noite de domingo, já a ouvi para aí umas cinco vezes. “Harvest Moon”, de 92, é um Neil Young apaziguado. Canções sobre o amor, a beleza e os amigos, cantadas por aquele trovador com uma voz sublimemente frágil. O melhor está, parece-me, no tema que dá título ao álbum e em “Dreamin’ Man” (amanhã, se calhar estará em "You and Me" e "One of These Days"). Já o tinha percebido e confirmei-o: é necessário ouvir Neil Young para entender melhor, por exemplo, os My Morning Jacket, de Jim James (uma das grandes surpresas dos últimos anos, sobretudo quando não se metem em rockalhadas estéreis). Nunca pensei dizer isto, mas há alturas em que um homem deve assumir as suas responsabilidades: os sacanas dos Alphaville tinham mesmo razão. NCS

quarta-feira, setembro 15, 2004

Me voy me voy me voy

Aviso os leitores e os restantes quase famosos que estarei até Segunda Feira impedido de postar na terra fria da Carlsberg, da Rebecca Romjin-Stamos e dos Raveonettes, usufruindo não necessariamente dos items referenciados. Quando regressar, o concerto dos Libertines e a razão pela qual o Pedro Adão e Silva e o Eduardo Nogueira Pinto escreveram sobre Madonna nos seus outros blogs (este e este) e não aqui no QF (avanço resposta resumida: Madonna não é música, é teatro).

Entretanto, será sempre bom registar que o QF começa a fazer escola:

"Não se pode dizer que estejamos habituados a isto. Uma banda em plena ascenção e no pico absoluto da sua criatividade vir a Portugal para que a possamos ver nesse momento decisivo - pelo qual todas passam - em que se define se permanecem na posteridade ou se simplesmente nos ficam como a brisa esporádica que um dia soprou, agradou e desapareceu. Não tivemos essa possibilidade com os Strokes ou com os White Stripes, mas tivemo-la já este Verão com os Franz Ferdinand. E agora (Sexta 10, Lisboa, Paradise Garage, 21h) com os Libertines" (Moi-même, 06/09)

"São raras as ocasiões em que o público português pode assistir a um concerto de uma nova banda britânica no momento preciso em que esta prepara a descolagem para outro nível, o do sucesso generalizado (ou do glorioso falhanço). O último Sudoeste trouxe-nos os Franz Ferdinand no momento certo; sexta-feira, dia 10, é a vez dos LIBERTINES no Paradise Garage, em Lisboa." (Gonçalo Palma, Luís Guerra e Rita Guerreiro, Blitz, 07/09, pág. 23).

Spooky.

FMS


segunda-feira, setembro 13, 2004

E canta!


Depois de ter feito o papel de uma atormentada Carla Bruni no cinema, Chiara Mastroianni seguiu as pisadas desta na vida real (seja lá isso o que for) e deu-lhe para cantar. O disco é feito em casa, a meias com o maridozinho, e soa a isso mesmo. Resultado, não é para ouvir no carro, nem na praia, nem noutro qualquer lugar. É um disco para ouvir no sossego e no recato do lar. Já se sabia que sendo a rapariga muito bonita, não era ainda assim tão bonita como a mãe (vide foto). O que deve ser uma chatice. Mas, valha-nos que canta melhor do que aquela (apesar de uma colaboração muito divertida da senhora Catherine com o respeitável Malcom Maclaren, já lá vão bastantes anos). Ah, o disco tem o mui adequado título de Home e um tema perfeito, que surge à faixa 5 e dá pelo nome de Quelque Part On M’Attend. As outras músicas são todas para nos deixarem invejosos do Benjamin Biolay, que é quem ajuda na lida. Como é sabido, a inveja é uma coisa muito feia. PAS

sábado, setembro 11, 2004

Home of the brave

'(...)
And I said: ok. Who is this really? And the voice said:
This is the hand, the hand that takes. This is the
hand, the hand that takes.
This is the hand, the hand that takes.
Here come the planes.
They’re American planes. Made in America.
Smoking or non-smoking?
And the voice said: Neither snow nor rain nor gloom
of night shall stay these couriers from the swift
completion of their appointed rounds.
(...)'

O excerto que acima reproduzo é de uma das minhas músicas preferidas. Mais uma peça de spoken word do que propriamente uma canção, mas com uma musicalidade superior a muitas e muitas melodias. O tema é de Laurie Anderson, chama-se O Superman, encontra-se no álbum Big Science e foi escrito em 1982 a propósito da tentativa (falhada) de libertar os reféns americanos no Irão no final dos anos 70. Desde aí, e com o que entretanto se foi passando no mundo, esta letra complexa e rebuscada ganhou novos sentidos.
A versão de O superman de que mais gosto, a mais arrepiante que já ouvi, está num outro disco: Live in New York, gravado no Town Hall (123 W 43rd Street) em 19 e 20 de Setembro de 2001. Ouviram bem? 19 e 20 de Setembro de 2001. ENP

O que faço eu aqui

'(…) And mostly all I have to say about these songs is that I love them, and want to sing along with them, and force other people to listen to them, and get cross when these other people don’t like them as much as I do (…)'
Nick Hornby, 31 songs

Esta semana tive duas boas alegrias: esta e esta

ENP

sexta-feira, setembro 10, 2004

Out-takes


O Franscisco já aqui sublinhou que é raro bandas em estado de graça virem tocar a Portugal. Mas, dá-se o caso que hoje, depois dos Franz Ferdinand no Sudoeste, no Paradise Garage tocam os The Libertines – que estão permanentemente entre o estado de graça e o de desgraça. Os The Libertines que são uma banda que escreveu uma série de temas que eram para ter sido escritos pelos The Clash (isto é um grande elogio!). O novo single, “Can’t stand me now” é claramente um out-take do London Calling. Quem achar que não e, enquanto ouve, for capaz de resistir a abanar a perna que levante a mão do mouse. PAS

quinta-feira, setembro 09, 2004

Post it

Não esquecer:

Escrever sobre os Cake.

FMS

quarta-feira, setembro 08, 2004

Transparência



Sendo os tempos que correm de vasculhice generalizada, com as atenções da turba voyeurista especialmente viradas para os políticos, para os rendimentos que declaram e para as companhias que os entretêm entre lençois, defendo que também os críticos musicais e respectivos aspirantes deviam trazer à luz do dia as manias que o seu baú secreto esconde, as suas obsessões menos confessáveis, as suas escolhas menos aceitáveis socialmente. Por solidariedade, mas igualmente por maioria de razão, tendo em conta que um líder de opinião influencia bem mais pessoas que um líder político. Comecemos então por mim e pelos Spandau Ballet, uns dos meus foleiros predilectos (sim, há mais). Muitos amigos não acreditam, até porque já lhes contei, a este propósito, muitas mentiras. Mas desta vez podem acreditar. Como diziam os próprios, this much is true. Ooh!

FMS

Veloz

Dirigia-me para casa quando uma recordação desagradável me assaltou a memória, imediatamente se baixou o pé direito e o carro arrancou a uma velocidade muito pouco consentânea com o Código da Estrada. E foi aí que lembrei o Umberto Eco e a sua Lentidão – Quando queremos lembrar alguma coisa abrandamos, se pelo contrário, pretendemos esquecer, aceleramos.
E não é que na música é a mesma coisa. Quando o motivo de uma canção é uma memória doce, ainda que triste, tende a ser cantada lentamente. Ao contrário, se a causa é antipática, se o objectivo é agitar e contestar, será tudo mais veloz.
CG

Até que idade pensas ouvir os Black Rebel Motorcycle Club?

Às vezes, um cidadão dá por si a pensar em questões menores como “por que é que o mundo é tão injusto?”. Outras, é apanhado a reflectir sobre os temas fundamentais da humanidade: “terei ainda idade para ouvir estas guitarradas distorcidas?”. É assim, fútil e essencial, a existência. Um indivíduo guia a sua carripana no IC19 e, enquanto resguarda prudentemente a condução na faixa da direita, vai perguntando a si próprio se ainda faz sentido ouvir a fúria adolescente de uma banda de garagem (mesmo que sobredotada). A cogitação acaba sempre com uma pergunta-limite: “se hoje fosse a um concerto dos Young Gods, teria ainda rins para um stage-diving?”. São interrogações que marcam uma pessoa. Até porque, lembremos, existe sempre o fantasma da menopausa musical. A fase em que se acha normal passar todos os sábados à noite a ouvir a discografia do David Sylvian (um talento irrepetível mas que, por vezes, é tomado como um vulgaríssimo calmante). Regressemos ao IC19: o indivíduo ainda permanece na faixa da direita no seu estilo devagarinho-que-eu-já-não-tenho-idade-para-a-rambóia. Mas, agora, mostra-se mais disposto à ajuda. A ordeira criatura recorda o exemplo de um primo que, já perto dos quarenta, sentiu um entusiasmo pela PJ Harvey tão vulcânico quanto o que havia sentido pelos Rolling Stones. E repete em voz alta que o disco dos Franz Ferdinand é do caraças - e que lhe dá ideias de organizar uma festarola com estridentes colunas. Sim, é outra vez moço. Arrisca a foleirice do termo: jovem. É então que abre o vidro, põe o braço direito de fora e repara que continua a ser ultrapassado por centenas de pais de família. Já reconciliado com os mistérios da existência, pode então imaginar que os senhores vão batendo a mãozinha no volante, ao som do alegre hit das Corrs. NCS

On top of the world


Depois não se queixem que não foram avisados.PAS

segunda-feira, setembro 06, 2004

Erros de casting



Num mundo perfeito, todo o jornalismo musical seria como aqui o QF: feito com e por amor. Se há domínio onde a objectividade não só não é bem vinda como se suspeita nunca conseguirá entrar é o da música pop. Daí o ridículo, por exemplo, de enviar para determinado concerto um determinado jornalista sem a mínima relação com o artista objecto da sua crónica (ou, quanto muito, com uma relação profissional de conhecimento - aaarrgghhh!!!!!). No último Sudoeste, os Dandy Warhols foram especialmente vergastados por alguns dessas criaturas deslocadas, que não puderam senão ver o concerto dos ditos como se estivessem perante a Banda do Exército. O resultado foi o esperado, deplorando-se essencialmente a presença em palco, amplamente desdenhosa da audiência que se amontoava à frente do palco. Pelos vistos, ficaram mais incomodados os jornalistas lá longe, no alto do seu varandim, do que a audiência, que sabe que um dandy não olha para baixo e é relativamente feliz se não for importunado enquanto se dedica à sua arte. Mas claro que, quando falamos de pop, sabemos que estes excessos de confiança têm um aditivo. E muita gente ainda não percebeu que heroin is so passé.

FMS

The Likely Lads



Não se pode dizer que estejamos habituados a isto. Uma banda em plena ascenção e no pico absoluto da sua criatividade vir a Portugal para que a possamos ver nesse momento decisivo - pelo qual todas passam - em que se define se permanecem na posteridade ou se simplesmente nos ficam como a brisa esporádica que um dia soprou, agradou e desapareceu. Não tivemos essa possibilidade com os Strokes ou com os White Stripes, mas tivemo-la já este Verão com os Franz Ferdinand. E agora (Sexta 10, Lisboa, Paradise Garage, 21h) com os Libertines, o capítulo mais recente da tradição da pop aristocrática britânica, feita de guitarras em carne viva, melodias amargo-doces, pronúncias desavergonhadamente cockney, troncos nus, letras sobre a decadência e, música à parte, desentendimentos vários entre as duas prima donnas do bando, que envolvem drogas, assaltos e detenções. Imaginemos Sade, Wilde e Beaudelaire, todos no mesmo combo. Não será, obviamente, para toda a gente. Quem preferir, poderá escutar na mesma noite Pedro Abrunhosa no Casino do Estoril, que eu não me importo. Mas eu também não faço a mínima ideia do que seja isso das prisões sobrelotadas.

FMS

Todo um programa político


Melhor a cada audição o último Kings of Convenience (Riot on an empty street), atente-se na letra deste tema, que é single e cuja audição deve ser acompanhada do respectivo clip, que com sorte dá para apanhar no Brand:New, ao fim da noite na MTV ou, em piores condições, aqui.

I’d rather dance with you
I’d rather dance with you than talk with you, so why don’t we just move to the other room.
There’s space for us to shake, and “hey, I like this tune”.
Even if I could hear what you said, I doubt my reply would be interesting for you to hear.
Because I haven’t read a single book all year, and the only film I saw – I didn’t like it all.
I’d rather dance with you than talk with you.
The music is too loud and the noise from the crowd increases the chance of misinterpretation.
So let your hips do the talking.
I’ll make you laugh by acting like the guy who sings, and you’ll make me smile by really getting into the swing.
I’d rather dance with you.

PAS

quarta-feira, setembro 01, 2004

Da Escócia com amor


Estamos no início de Setembro e muito provavelmente o melhor álbum do mundo do ano já saiu. Depois de seis meses a ouvi-lo no carro e de um concerto no Sudoeste as dúvidas dissiparam-se. Os Franz Ferdinand, que não trazem nada de especialmente novo, também por causa disso, levam já a taça.
A música é simples como se quer. Guitarras ritmadas – aquelas riffs são todos do catano –, o baixo e a bateria que estão lá para não serem notados, mas apenas para nos empurrarem as ancas para os lados e vozes saídas directamente de 1981. Imagine-se que, em lugar de reedições dos álbuns e de colectâneas, os A Certain Ratio (a propósito, corram para comprar a compilação “Early” editada em 2002 pela Soul Jazz – grande edição, com textos, fotos e filmes) lançavam hoje o seu primeiro disco, ou que os Talking Heads estavam a fazer o sucessor do Remain in Light ou, igualmente bom, que os Television não eram o bando de adormecidos que se arrasta por concertos em 2004. Pois foi isso que os rapazes fizeram. Imaginaram tudo isto, juntaram-lhe ainda mais sentido de humor, uma enorme vontade de sacar umas raparigas e, pronto, alinhavaram onze temas rasgados que fazem as pazes com o rock. Claro que antes do disco, passaram anos a ouvir tudo o que deviam. “Ansiedade da influência” é isso que ali está. Não há grandes bandas que não tenham ouvido grandes músicas e claro que, entre a vassalagem (há outra expressão que se possa usar quando se fala do senhor SPM) aos ídolos, os Franz Ferdinand, durante a adolescência, fizeram os trabalhinhos de casa. Depois de Roddy Frame, Lloyd Cole, David Byrne (sim, não parece mas o rapaz vem das Terras Altas), Teenage Fan Club, Belle and Sebastian e quantos mais, a Escócia envia-nos quatro novos mensageiros com uma mensagem simples e muito “byrniana”: as músicas percebem-se melhor se forem dançadas. No carro, em casa ou no sofá, tanto faz. Claro que já não precisam de fazer mais nenhum disco. Aliás, o melhor era mesmo que não fizessem mais nenhum disco.PAS